sexta-feira, 17 de abril de 2009
- Alguma vez - dizíamos- , quando as coisas mudarem.
- Vamos ter uma casa.
- Seria lindo.
Por algumas noites pudemos pensar atordoados, que era por isso que se lutava. Que para que isso fosse possível é que as pessoas se atiravam na luta.
Mas era uma trégua. Logo soubemos, ela e eu, que antes disso iríamos esquecer um ao outro ou morrer.
- Aqui ninguém encontrará você. Fica, até que as coisas mudem.
- As coisas mudam sozinhas?
- O que você vai fazer? A revolução?
- Eu sou uma formiguinha. As formiguinhas não fazem coisas tão grandes como a revolução ou a guerra. Levamos pedacinhos de folha ou mensagens. Ajudamos um pouco.
- Folhinhas, pode ser. Ficaram algumas plantas.
- E algumas pessoas.
- Sim. Os velhos, os milicos, os presos e os loucos.
- Não é bem assim.
- Você não quer que seja bem assim.
- Mas você quer me dizer como é que se acaba uma ditadura? Com flechinhas de papel?
- Com o quê, eu não sei.
- Daqui, se acaba com uma ditadura? Por controle remoto?
- A heróina solitária busca a morte. Não, não é machismo pequeno burguês. É feminismo.
- Sabe de uma coisa? Estamos todos desamparados.
- Sim.
- Todos. Desamparados.
- Sim. Mas eu gosto de você.
(Eduardo Galeano em A moça com a cicatriz no queixo )
(1974)
terça-feira, 14 de abril de 2009
Algumas coisas estão muito claras para mim quando começo um projeto. Neste filme, por exemplo, era óbvio para mim que eu queria dar uma outra imagem destes meninos. Eu estava convencido de que se você realmente ouve o que eles têm a dizer, eles são muito mais interessantes do que a maneira habitual com que a sociedade os observa. Essa era uma determinação de início para a construção do filme. A segunda era mostrar como a escola poderia de fato ajudar alguém a crescer. Que a escola como ela existe hoje não é algo descolado da sociedade, mas parte dela. Esses muros não a protegem da sociedade, as questões da sociedade lá fora atravessam o ambiente da escola. Esses dois pontos eu queria ilustrar com o filme. E, por outro lado, a história é sempre um ponto importante para mim, mesmo que às vezes ela seja mínima. Eu sempre tento lidar com essas questões fundamentais sem fornecer uma tese sobre elas. Quero mostrar a maneira como os personagens sofrem por algo, ou sentem esta coisa em suas vidas, o que é verdadeiro e diz respeito àqueles personagens, e não apenas “eu sei disso de antemão e direi isto através de você”. Eu não sei de nada, eles sabem.
Laurent Cantet, diretor de Entre os Muros da Escola
segunda-feira, 6 de abril de 2009
quarta-feira, 1 de abril de 2009
segunda-feira, 23 de março de 2009
domingo, 8 de março de 2009
quando noto, fico muito feliz
com o que aprendi com ela cuido do meu pai que é belo na sua fragilidade e na sua força.
com o que aprendi com ela cuido de Arthur.
acho lindo o jeito dela de querer ser feliz
acho lindo meu pai velando pra que ser feliz dê certo.
e quando Guimarães Rosa fala da vida, acredito
o que ela quer dar pra gente é coragem.
sábado, 21 de fevereiro de 2009
quando não fazemos idéia
Junto a Elefante o diretor constrói um poema sobre a atenção não dada, sobre a nossa incompreensão sobre um tempo, sobre meninos e meninas em um tempo, em algum lugar. Sobre como quando ele nos mostra seus meninos, quando simplesmente os filma com todo seu peso e sua confusão e aquilo é tão poderoso que é como se fosse a primeira vez, como se precisassem ser apresentados já que não fazemos idéia. Não fazemos idéia.
Como se eles não tivessem por aí em tantos shoppings, ruas, pistas de skate, numa escola aqui ou lá. Como se não estivessem em alguma escola com suas camisetas amarelas esperando por um beijo.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
A mulher que diz tchau
Levo comigo um maço vazio e amassado de Republicana e uma revista velha que ficou por aqui. Levo comigo as duas últimas passagens de trem. Levo comigo um guardanapo de papel com minha cara que você desenhou, da boca sai um balãozinho com palavras, as palavras dizem coisas engraçadas. Também levo comigo uma folha de acácia recolhida na rua, uma outra noite, quando caminhávamos separados pela multidão. E outra folha, petrificada, branca, com um furinho como uma janela, e a janela estava fechada pela água e eu soprei e vi você e esse foi o dia em que a sorte começou.
Levo comigo o gosto do vinho na boca. (Por todas as coisas boas, diziamos, todas as coisas cada vez melhores que nos vão acontecer.)
Não levo uma única gota de veneno. Levo os beijos de quando você partia (eu nunca estava dormindo, nunca). E um assombro por tudo isso que nenhuma carta, nenhuma explicação, podem dizer a ninguém o que foi.
domingo, 25 de janeiro de 2009
quando ele diz pela boca do outro
em copacabana:
“e a pólvora,
de que é feita?”
a pólvora, ora
de que é feita
a pólvora?
estes fogos
em seus olhos
eu queria engolir
essas faíscas
eu queria te dar
uma resposta aberta
em fogo no céu
eu queria dizer:
“você fez a pólvora
com um beijo.”
(Pedro Cesarino)
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
A fome/2
Um sistema de desvínculo: Boi sozinho se lambe melhor... O próximo, o outro, não é seu irmão, nem seu amante. O outro é competidor, um inimigo, um obstáculo a ser vencido ou uma coisa a ser usada. O sistema, que não dá o de comer, tampouco dá de amar: condena muitos a fome de pão e muitos mais à fome de abraços.
Dizem as paredes/1
No setor infantil da Feira do Livro, em Bogotá: O Loucóptero é muito veloz, mais muito lento.
Na avenida costeira de Montevidéu, frente do rio-mar: Um homem alado prefere a noite.
Na saída de Santiago de Cuba: Como gasto paredes lembrando de você! E na altura de Valparaíso: eu nos amo.
A noite/2
- Arranque, senhora, as roupas e as dúvidas. Dispa- me, dispa-me.
A noite/3
Eu adormeço às margens de uma mulher, eu adormeço às margens de um abismo.
(eduardo galeano)
terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Ainda a caminho minha prima disse que a serra é sua mãe.
Achei bonita a metáfora. Enquanto ela dizia do carinho, logo a frente já haviam alguns dos paredões que abrigavam como braços bichos, gente e plantas há milhões de anos.
Além do que carro e pegada deixa, passarinhos, caititus, borboletas amarelas e um veadinho apressado guiaram a caminhada. E tantos mais que só vimos o rastro ou ouvimos o som.
A dança, o beijo, e o parto de que as pinturam disseram são de fazer chorar tamanha fragilidade que consegue ser eterna.
As pegadas dos pequenos também.
E sei que a mãe que pariu é tão linda quanto.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada minha aldeia estava morta
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa. Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O Silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Pilhei uma paisagem velha a desabar sobre uma paisagem.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
Representou para mim que ela andava na aldeia
De braços com Maiakovski – seu criador.
Fotografei a nuvem de calça e o poeta.
Nenhum outro poeta no mundo faria uma roupa mais
Justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.
(Manoel de Barros)
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
é que sou muito interessada em casas
e eu sei do guardar dessa
dos arredores que conseguem ser tão silenciosos às vezes
só quebrado por grilo poderoso
cão faminto
e o gato
e o choro da criança da casa da frente
é casa eternizada
eternizada por pássaros
por meus pais
por nós
mas há também uma secura da fumaça do mato queimado por perto
por alguém
algum homem
que não entendeu nada desse rio
sábado, 15 de novembro de 2008
sábado, 1 de novembro de 2008
amor e guavira
De tempos em tempos algumas imagens parecem comover mais. Esses dias ouvindo tetê, lendo manoel é como sentir saudade da chapada e do pantanal que ainda não conheci, e é poderosa essa saudade do que ainda não se viveu. É ser alcançado.
É como uma revelação, como o rio que passa ao pé da rã, e o sabiá pousado enorme na codilheira dos andes. Lição linda de manoel que nessa tarde quente à beira do rio tetê canta e arthur traz com seu "passagem".
espero sua chegada, pro nosso amor que é também da rua virar nosso amor de mato, de rio...
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Eu vinha pela janela do ônibus reparando na forma como as pessoas vinham à sua maneira vivendo, sobrevivendo sob o sol. Quando Caetano cantou é como se soubesse desse sol, precisa ter olhos firmes.
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
domingo, 12 de outubro de 2008
Tantas essas vezes em que quando dizem algo sobre nós e não há uma sineta que nos toque dentro, que realmente alcance. O filme de Todd Haynes é uma compreensão disso, um menino com os olhos cheios de sol, um astro, um andarilho, um assanhado em corpo de mulher e com olhos de fumaça. É sobre como por vezes as pessoas não fazem idéia do que você viveu e de como o que você viveu e vive te muda sempre. Se há uma forma de biografia, se há uma forma de mostrar como podemos ser multifacetados, flexíveis, mutantes e estáticos às vezes, essa me pareceu a mais justa. Acho que porque permite deixar faltar, não mostrar, dizer que não é tudo e que aquilo que se mostra em si não responde somente. Não responde. É só uma compreensão.
É como quando Caetano canta 'you don't know me', é dessa incompreensão do traduzir, do interpretar que encerra e é tão injusto. Tão injusto encerrar, engessar alguém. Enquanto tentar compreender com o pouco que se tem, tentar compreender, sentir com o pouco que se tem a oferecer é comovente, é lindo.

