@ tainah negreiros

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

conta os fios dos teus cabelos
sonhos e anelos
conta-me se o amor não tem fim

domingo, 13 de setembro de 2009


No início de "Two Lovers" a personagem de Vinessa Shaw, Sandra, diz que quis conhecer Leonard após ir à lavanderia que ele trabalha e ter visto ele chamando a mãe para dançar. E ele lhe diz:"Isso é muito eu mesmo". Leonard dança com Michelle em uma boate, tenta lhe beijar o pescoço e depois, decepcionado, arranca um resto de papel colado na parede de um poste enquanto a espera. Ali, talvez ainda não saibamos, mas o filme vai tratar de construir e dizer, aquilo é "muito Leonard", e em gestos como esse é que está a força do filme de James Gray.
Não sei bem sobre o que é o filme, mas sei o que lhe interessa mas suspeito que o filme se volta para  as expectativas. Expectativas que alimentam e também podem ser tão destrutivas. O filme trata desses tempos de espera tantas vezes vividos em que rezamos para que alguém chegue porque o não chegar quer dizer desmoronar, quer dizer em um instante perder tudo. "Tudo", nesse filme, parece ser Michelle, ou a vibração e energia que ela parece carregar consigo, energia entregue às drogas e ao relacionamento autodestrutivo. Isso tudo em constraste com a beleza tranquila de Sandra que "invade" a casa de Leonard e lhe diz do seu desejo assim simplesmente.

 Gosto de pensar nos personagens um tanto longe do contexto familiar e de pressão de que o filme também fala, como na cena em que Leonard ameça ir embora e a mãe lhe olha e lhe diz que, para além de tudo que ele esteja envolvido, quer que ele seja feliz - para além da possível chantagem das relações de poder e interesse que podiam tomar lugar do filme naquele momento. Mas a questão é de querer ser feliz mesmo,do que essa expectativa e desejo envolvem e dos lugares onde a felicidade se acha.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Chove o dia inteiro em Curitiba.
Eu ia pro Rio hoje.
Voltei a ouvir Nick Drake, acho que por causa da chuva.
Conversei longamente com Mariana sobre Caetano e sobre o que ele nos diz.
Rimos tanto.
Arthur me mostrou uma carta escrita por um crítico filipino para sua namorada jornalista eslovena
os dois foram mortos por assaltantes em sua casa em Quezon City
a carta falava sobre filmes, cidades, sobre as filipinas e sobre a eslovênia.
Ontem encontrei uma amiga de Minas, a Rebecca.
Falei com meus pais pelo skype, a voz deles tinha tanta saudade quanto as palavras.
Disse pra Arthur de uma perplexidade que me tomou
de pensar em não ter conhecido essas pessoas de longe que conheci por aqui, pelo computador
Pensei isso logo que Rebecca se despediu
O que eu já pensei tantas vezes assustada "E se por um triz não tivesse encontrado Arthur?"
Que susto!
Eu e Arthur saímos andando pela rua, nos demos conta dos meses que estamos juntos
E hoje eu disse pra Mari do que pensei
É assim
Eu também quero ir pra rua
mas não para de chover em Curitiba.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

terça-feira, 1 de setembro de 2009

saudade de São Raimundo Nonato
meu pai me mostrou fotos lindas que tirou lá
de árvore, reza e pássaro
nessas tardes as canções de Sá & Guarabyra se parecem com a estrada que leva até lá
saudade de uma cadeira na calçada
em frente as casas coloridas

sábado, 29 de agosto de 2009

Minha mãe me passou o nosso novo número de telefone. Não consigo apagar o antigo, por tantos anos me ligaram no antigo, tantos anos dando o antigo pras pessoas. Sou sem jeito pra isso.
A casa está lá, com as paredes impregnadas do amor que sentimos e que vivemos lá, envolta de uma fumaça de incompreensão. Foi lá que os jamins floresceram e cheiraram forte. Foi lá que os gatos chegaram e de lá partiram, lá que meu pai plantou um pé de acerola na janela, depois cresceu um de laranja, enroscado no de acerola. Foi lá que eu cresci, em tudo que a palavra crescer abarca.


é do lado daquela casa que passa um rio
e o meu mal é o de não esquecer
de ter boca que carece de raiz

quarta-feira, 26 de agosto de 2009


boca
: pequena abertura para o deserto.

trapos:substantivo masculino
pessoa que tendo passado muito trabalho e fome
perambula com olhar de água suja no meio das ruínas
quem as aves preferem para fazerem seus ninhos
diz-se também - de quando um homem caminha para o nada

pedra: substantivo feminino
pequeno sítio árido em que o lagarto de pernas areientas medra
indivíduo que tem nas ruínas posperantes de sua boca aridez de raiz
lugar de uma pessoa haver musgo
palavra que certos poetas usam para dar concretude a solidão

olho: é uma coisa que participa do silêncio dos outros.


(manoel de barros)

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

















Por que tão verde e solitário?

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

é
toda hora vem gente dizer
"fulano viajou"
"foi pro sul"
é isso aí!
Mais cedo ou mais tarde todo mundo vai
mas não é pra enricar não
é só pra viver.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Queria que coubesse aqui o que senti na minha despedida de pequenos e grandes na Casa Dom Barreto quando saí de Teresina.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

terça-feira, 28 de julho de 2009

Por que sou Vegetariano?


“Minhas razões para ser vegetariano são muito simples:
Os animais têm capacidade de sofrer.
Quando são criados para nos fornecer carne, eles sofrem de muitas e desnecessárias maneiras.
Nós não precisamos comer carne. Qualquer que tenha sido a situação no passado, nos primórdios da evolução humana, hoje as pessoas de classe média dos países desenvolvidos têm uma gama enorme de alimentos nutritivos a sua disposição. Uma dieta vegetariana não impede o acesso a proteínas e outros nutrientes essenciais. Comemos carne porque apreciamos o sabor, não porque ela seja necessária a nossa saúde.
O desejo de saborear a carne dos animais não justifica faze-los sofrer.
Portanto, não deveríamos comer animais que sofrem só para isso – para nos fornecer sua carne.
O sofrimento a que me refiro não ocorre apenas nos matadouros. Muitas pessoas ainda sabem como funcionam as modernas fazendas industriais. Nelas, a mecanização e os métodos de negócios corporativos são aplicados de acordo com o princípio de que os animais são objetos a ser consumidos. Para baratearem o custo, os produtores confinam e amontoam os animais de maneira tal que os condenam a passar a vida inteira em condições horríveis.
Tudo isso ocorre por um equívoco ético fundamental. Os racistas pensavam que um ser humano que não pertencesse a sua raça se situava fora da esfera da ética. Podia, portanto, ser capturado e vendido como escravo. Não acreditamos mais que as fronteiras raciais demarquem os limites para além dos quais os seres humanos se transformem em objetos para nosso uso. Mas ainda achamos que seres que estão fora da fronteira de nossa espécie não passam de coisas úteis. Não há base moral para essa crença. A escravidão animal deveria ser enterrada, juntamente com a escravidão humana, no cemitério do passado.”

Peter Singer

Filósofo australiano, professor de bioética
da Universidade Princeton. Seu livro Libertação animal
é um libelo do movimento de proteção aos animais

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Um inseto me pegou e eu estou com o olho bem inchado, hoje ainda mais inchado e vermelho que ontem. Acordei e desci para falar com meu pai, e ele me olhou por um segundo e nada mais que isso, fez uma cara séria e triste. Nem é nada demais mas imagino o quanto pra quem ama um rosto vermelho e machucado seja ofensivo, como se fosse um lugar de impossibilidade. "Não, não com ela".

segunda-feira, 20 de julho de 2009

voz mendiga

E ainda me atrevo a amar
o som da luz numa hora morta,
a cor do tempo num muro abandonado.

Em meu olhar o perdi todo.
É tão distante pedir. Tão perto saber que não há

(alejandra pizarnik)

sexta-feira, 17 de julho de 2009

O que mais me emociona no bumba-meu-boi como manifestação, ou simplesmente quando canção, é quando ele soa como um lamento, mesmo quando o ritmo das matracas e dos maracás chama para dançar.
E quando digo lamento é pelo desejo incontrolável da negra Catirina que quer dizer o sacrifício, ali, quando o cantador diz do boi que olha.

levanta boi e vai
que é pro amo ver
que boi também chora,
também sente dor

sábado, 11 de julho de 2009

eles vinham de longe

Se tivessem conhecido o idioma da cidade, poderiam ter perguntado quem fez o homem branco, de onde saiu a força dos automóveis, quem segura os aviões lá no céu, porque os deuses nos negaram o aço.

Mas não conheciam o idioma da cidade. Falavam a velha língua dos antepassados, que não tinham sido pastores nem vivido nas alturas da serra nevada de Santa Marta. Porque antes dos quatro séculos de perseguição e expoliação, os avós dos avós dos avós tinham trabalhado as terras férteis que os netos dos netos dos netos não puderam conhecer nem de vista nem de ouvir falar.

De modo que agora eles não podiam fazer outro comentário que aquele que nascia, em chispas bem humoradas, dos olhos: olhavam essas mãos pequeninas dos homens brancos, mãos de lagartixa, e pensavam: só podem dar presentes feitos pelos outros.

Estavam parados numa esquina da capital, o chefe e três de seus homens, sem medo. Não os sobressaltava a vertigem do trânsito das máquinas e das pessoas, nem temiam que os edifícios gigantes pudessem cair das nuvens e despencar em cima deles. Acariciavam com a ponta dos dedos seus colares de várias voltas de dentes e sementes, e não se deixavam impressionar pelo barulho das avenidas. Seus corações sentiam pena dos milhões de cidadãos que passavam por cima e por baixo, de costas e de frente e de lado, sobre pernas e sobre rodas, a todo vapor: "Que seria de todos vocês" - perguntavam lentamente seus corações - "se nós não fizéssemos o sol sair todos os dias?"

(eduardo galeano)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

um gato mia lá fora
não é meu gato perdido
há uma vista de um lado da casa que é a cara dele
todos os muros
os telhados que ele cheirou

os sons dos bichos por aqui
soam como um pedido.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

the children come in here and they dare the ghost.

sábado, 4 de julho de 2009

aprenderei a dormir
mas lamento por esses dias
meu quarto que não é mais tão fotogênico
nem eu

não encontro lugar
meu sono que não é mais meu
parece pregado nas paredes
parece ficar lá enquanto durmo
e aquilo não é sono

aprenderei a dormir
aprenderei a lembrar dos cães
vou lembrar

não, eles não viviam aqui
mas de alguma forma
melhoravam essa casa
aprenderei a dormir
na memória de um muro,
na respiração
de um animal que sonha.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

sábado, 27 de junho de 2009

você lembra do céu mais estrelado?
aquele, onde a fumaça feia ainda não chegou
estou tentando te alcançar daqui

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Vem namorada que a madrugada
ficou mais roxa que dos olhos teus
as pálpebras cansadas

amo esse lugar



a casa não é só nossa.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Nua sonhando uma noite solar
sepultei dias animais
o vento e a chuva me apagaram
como a um fogo, como a um poema
escrito num muro.


(alejandra pizarnik)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

coisas dessa casa

da janela da sala vemos um camaleão na laranjeira
verde
como a laranjeira
eu e meu pai ríamos na gostosura de uma manhã daqui
do que parece milagre
o bicho ser verde como a laranjeira
e poder mudar de cor depois
meu pai me contou também que um passarinho está recomeçando um ninho
nas plantas da frente
em algum lugar devem chamar isso de metafísica
outros podem chamar de deus
foi deus quem fez
quem sabe

mas pra gente
em uma manhã
às vésperas de uma mudança
são só coisas dessa casa
que a gente já sente falta

terça-feira, 2 de junho de 2009

canto do povo de um lugar


Todo dia o sol levanta
E a gente canta
Ao sol de todo dia

Fim da tarde a terra cora
E a gente chora
Porque finda a tarde

Quando a noite a lua mansa
E a gente dança
Venerando a noite

(caetano)

sábado, 30 de maio de 2009

Essa noite fui comer iogurte com rapadura moída e caí com a cabeça na mesa de saudade do meu avô. Lembro tanto das mãos dele preparando as coisas para comer. E não digo que isso me lembrou ele  porque não esqueço de nada.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

segunda-feira, 25 de maio de 2009

a infância reencontrada


Os nomes dos discos de Dércio Marque são belíssimos, e percebi que dá pra escrever algo começando pela beleza dos nomes deles. Seja "Canto Forte, Coro da Primavera" às "Cantigas de Abraçar" que abraçam e abraçam. Há um canção chamada "Cantiga de Embalar" que meus pais ouviam comigo quando criança, e uma que chama "Era uma vez" que conta as histórias todas ao contrário que ainda pequena me fez entender muita coisa. Ouvi esse disco hoje e lembrei dos tempos que meus pais colocavam pra ouvir numa vitrola e eu revirava seu encarte verde, era ali que eu começava a entender essas coisas de mato, quando a minha boca começava a carecer de raiz e de rio. Podem me acusar de saudosista, mas é que eu gostava mesmo de ser criança, meus pais cuidaram bem disso.
E enquanto ouvia pensava em crianças, nas crianças que quero bem, em uma criança que gostaria de levar essa alegria, e pensei em um pequeno que quero bem mesmo à distância e que sei que o abraço da canção alcança. O Tito.

sábado, 23 de maio de 2009

Ns estrada voltando de São Paulo ouvi mais uma vez esse cd novo do Caetano de nome esquisito que traz tanta coisa. E enquanto ouvia era isso que via. E foi encontro tão bonito já que essa Falso Leblon me faz pensar em um fim tarde depois da praia, fim de tarde já melancólico depois da praia enquanto as coisas vão passando, homens e mulheres voltando do trabalho, meninas espertas, os meninos gostosos, gente.
Não teve praia, mas o fim de tarde era desses que Caetano diz e traz.

Ecstasy, bala, balada
E me chama depois
Pra dar uma e dar dois
Ela é que causa
Éque explana
E que acende os faróis

Mas o meu samba
Transcende
E apaga as pegadas
Que ela quer deixar
Falso Leblon
Big Brother
Tou fora do ar

Ai, amor
Chuva
Num canto de praia
No fim da manhã
E depois de amanhã?

O que faremos do Rio
Quando, enriquecendo
Passarmos a dar
As cartas
As coordenadas
De um mundo melhor

Quanta tristeza guardada
Na cara da moça bonita
Que dói
Francisco Alves
Seu Jorge, os Hermanos
Já foi

Ai, amor
Chuva
Num canto de praia
No fim da manhã
E depois de amanhã?

Drogas, tou fora
Tá foda
Agora vambora
Nem vinho tomei
Me sinto muito sozinho
E ela é a lei

Odeio a vã cocaína
Mas amo a menina
E olho pro céu
Ela se engancha por cima
De mim: quem sou eu?

reflete as cores
da paisagem da cidade
que é muito mais bonita
e muito mais intensa
do que no cartão postal

quinta-feira, 21 de maio de 2009

sem sol


Andar por São Paulo pode ser dolorido. Sinto pelas pessoas que trabalham tanto, e pelas plantas que trabalham tanto também.Dá vontade de chorar quando olho o céu e olho as pessoas e o verso do Caetano vem a cabeça. A canção ainda é totalmente nova e verdadeira quando diz sobre essa fumaça feia que sobe apagando as estrelas.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

A lição mais bonita

Quando pequena por várias vezes meu pai me dizia, e lembro especialmente quando ele me disse essa vez no quintal da casa onde morávamos, quando uma aranha daquelas de perna fina subiu na minha perna e ele me orientou quando eu pensei em matá-la para somente empurrá-la, ou senão, soprá-la. Depois de dizer isso me disse que somente por serem seres menores não quer dizer que sua vida seja menos importante. Hoje sou outra, mas ainda muito daquela, e ando soprando formigas de bunda grande, muriçocas ou aranhas de perna fina, e pensando em meu pai com um carinho do tamanho de todas essas vidas.