@ tainah negreiros

sábado, 31 de março de 2007


Eu deveria vir até aqui e falar de Stalker. Falar dos cenários, da mise-en-scène, ou de como seus atores são magníficos. Usar linhas e linhas falando de sua cena final e do meu arrebatamento. Poderia vir e falar de toda a sensibilidade de Tarkovski e de como ele faz de seu filme um poema que acalenta corações perdidos como o meu. Ou ainda, falar sobre a febre que senti, ou falar do choro. É, talvez eu devesse fazer tudo isso mesmo.




Mas prefiro só dizer que ele me roubou do mundo. E que agora, nesse instante, não penso em nada melhor que se possa fazer por alguém.

sexta-feira, 30 de março de 2007


"I'll be your plastic toy"

terça-feira, 27 de março de 2007

Sobre mulheres, dores e tons

Disseram uma vez que os grandes diretores estão fazendo sempre o mesmo filme. Diverso, porém o mesmo. Após ver este Volver me veio na cabeça isso. Lá estão as mulheres, mães, filhas, irmãs em todas as suas possibilidades. Lá estão suas mulheres agindo feito loucas sob uma moral senão outra que a materna, do tudo possível. Lá estão elas e a câmera de Almodóvar se enamora delas. Volver poderia facilmente, e sem perder o brilho, chamar-se Tudo sobre minha mãe e ainda sim, seria um belo título. Mas Almodóvar quer mais, há algo de novo na sua história, ele quer falar sobre volta, não redenção, mas sobre sobre voltar para casa, pra a vida, sobre simplesmente dar meia volta quando tudo que se ouve é sobre seguir em frente. É possível voltar, Almodóvar nos diz, e disso surge um belo cinema. Por vezes seus dramas e dores são novelescos, trágicos, mas o fato de que em cada fotograma percebermos o seu amor por suas mulheres, por seus personagens, por sua história, torna seus vermelhos, verdes e cor-de-rosas ainda mais francos e bonitos. O melodrama, a dor, e o riso, apesar da dor, é o que Almódóvar tem. A história que ele quer contar no cinema é essa, por mais diversa que ela por vezes tenha aparecido na tela.
Confesso ser ainda muito ligada ao velho Almodóvar, passei dias, meses pensando e sentindo o seu A Lei do Desejo, mas agora, em março de 2007 encontro este Almodóvar solto, apaixonado enchendo a tela de vermelho outra vez. Ela está mais límpida e clara, sim, mas ainda há paixão.





E muita.

sexta-feira, 16 de março de 2007

Eu e o Cinema


Gosto do Cinema que me faz lembrar que a vida carece de sentido.


Se a vida não faz sentido, porque exigir isso do cinema? Fico feliz quando vejo um filme que reconhece que tudo anda tão estranho, perdido e sem razão. Fico feliz quando o que se filma é frágil, imperfeito, incerto como o humano. Não gosto de truques, não gosto, não gosto, não gosto em lado nenhum do que me cerca, sempre fui avessa a eles e isso também sempre me irritou ao me deparar com o que se propõe a ser uma obra de arte, e mais que isso, no que se propõe a ser honesto. Quando falo de Cinema, não quero que ele tente me enganar ou seja espertinho, isso não me interessa. Gosto do Cinema franco. É lindo demais ver a imagem sendo usada não só porque é possível, mas pela impossibilidade da palavra. É como se o diretor dissesse: “ Isso que tenho só é possível de ser mostrado, não dito”. E eu fico com vontade de chorar com isso, ah, eu fico. Penso em um filme dos Dardenne e até hoje tento falar com alguns sobre o sentimento do homem que se afeiçoa ao menino que matou seu filho há anos atrás, o homem sente e ao mesmo tempo se odeia por isso. Como diabos explicar esse homem? Não há razão pra ele, nem pro menino, ainda uma criança. Ainda na escrita desse texto, penso em Tarkovski e no nariz que sangra, na casa que queima e na mulher que chora. Penso em Lucrecia e na menina que deseja, à despeito de tudo. Nem sempre eu soube o que se passava ali com aqueles homens, mas o cinema no seu som, silêncio e significado me deixa chegar mais perto. E eu chego, apesar do que me é estranho. Isso porque o cinema é humano, é produto do humano e eu aqui no auge dessa humanidade dolorosa e incerta não sei direito onde ir. Por que os personagens devem saber? Porque suas ações ou falta delas não podem ser tão chatas e tolas como a vida é? Por que o homem não pode de repente criar um estranho carinho pelo menino que matou seu filho, se ele também era uma criança? Porque a menina ao invés de sentir asco não pode sim sentir compaixão e carinho pelo homem que a molestou? Por que o homem anda, anda, recolhe-se em seu silêncio apesar de tudo que vê e sente? A vida não é feita de respostas exatas, não, não é. O Cinema que por vezes me encanta, é o que também não as tem. O diretor filma suas perguntas, não suas respostas prontas em um mundo que não tem como responder.
Pode parecer carência, mas o Cinema pra mim nunca foi mera distração, quase nunca não. É experiência, encantamento, companhia frente a toda estranheza. Esse Cinema que tanto me emociona, é como um colo.


terça-feira, 13 de março de 2007






Eu ainda não sei o nome disso que ele me traz.










segunda-feira, 12 de março de 2007

Eu tinha pensado em nem pôr mais letra nenhuma aqui, até ouvir essa maravilha do Flaming lips. Pensei em pôr um verso, sei lá, mas como diabos com ela toda linda do jeito que é? Sei nem o que dizer, me pegou e não larga mais.

Do You Realize

Do you realize that you have the most beautiful face
Do you realize we're floating in space
Do you realize that happiness makes you cry
Do you realize that everyone you know someday will die

And instead of saying all of your goodbyes - let them know
You realize that life goes fast
It's hard to make the good things last
You realize the sun doesn't go down
It's just an illusion caused by the world spinning round

Do you realize - Oh - Oh - Oh
Do you realize that everyone you know
Someday will die

And instead of saying all of your goodbyes - let them know
You realize that life goes fast
It's hard to make the good things last
You realize the sun doesn't go down
It's just an illusion caused by the world spinning round

Do you realize that you have the most beautiful face
Do you realize

domingo, 11 de março de 2007


O diabo é que a gente fica querendo dar nome pra tudo. Sempre senti um grande apreço pelo que a gente não sabe direito como nomear. Sentimentos, impressões, relações. Relações sem nome, endereço ou razão. Daí a gente se inquieta até encontrar fim e um começo pras coisas, e elas por vezes não têm. É uma bagunça isso aqui, tenho que me dar conta disso. Tem nadinha ir pela borda, passar pela grama, ir rápido, depois devagar. É bonito, é possível seguir e sentir mesmo sem saber o nome do que é.

sexta-feira, 9 de março de 2007

Cherry Blossom Girl

O barato agora são os alucinógenos alternativos. Eu fico com Air.







"I'm a high school lover, and you're my favorite flavor"

quarta-feira, 7 de março de 2007

Que belo filme! Não dá pra começar sem dizer.


Dá gosto ver como Karim Aïnouz filmou este Céu de Suely. E é bom logo falar do céu, porque já no começo ele está lá lindamente fotografado por Walter Carvalho. E fazia tempo que eu não reparava tanto no céu em um filme.
É preciso falar também do olhar, do jeito carinhoso que o diretor filma, e como essa forma de filmar surge como um pedido pra que cheguemos perto de sua protagonista, dela que sente tanto, que sente muito e ainda não sabe direito o que fazer da vida. Aïnouz pede e a gente atende, porque é difícil resistir a ela seja na sua força ou na sua dor. Hermila é adorável quando ama, odeia, quando olha pro céu, quando diz coisa nenhuma ou quando quer “deixar o menino no mato e sair correndo”. São todos olhares que o diretor nos deixa ter, não nos impõe, ele deixa. E não é fácil olhar alguém assim tão francamente, tão de pertinho como olhamos Hermila nesse filme. É difícil, mas graças ao cinema, graças ao carinho, a gente atende ao pedido de Aïnouz e vale muito, muito à pena.

terça-feira, 6 de março de 2007


Vontade de ir à praia. Vontade de ir à praia e dançar meio sem jeito uma canção do Manu Chao depois de beber qualquer coisa maluca.



Que voy a hacer, je ne sais pas
Que voy a hacer, je ne sais plus
Que voy a hacer, je suis perdu
Que horas son, mi corazón

quinta-feira, 1 de março de 2007


E os sonhos são ainda mais sujos.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Deve ter algo de errado com o mundo, algo com o alinhamento dos planetas, sei lá.


Há muita dor. Primeiro minha mãe, hoje acordou doente, frágil. Logo ela, a mulher mais forte que conheço. Depois, logo a noite, depois do maior dos desencontros, e do choro em banheiro sujo, fui pra aula dela, da mulher. Hoje a vi chorar e foi tão cruel que eu torci pra esse mundo ser um pouco melhor, torci pra que a vida fosse menos injusta, só pra ela não chorar assim, não ela. Ela, a professora, firme, segura, corajosa, chorou, chorou a perda e mais uma vez foi franca, esteve ali por inteiro. E eu ali me parti em duas pra entender como de repente as coisas acontecem, as pessoas entram, saem, vão embora. Olhei ao redor, meus amigos, pessoas queridas, outras nem tão queridas assim. O choro da mulher me fez pensar. Encontrei comigo e doeu. Chorei também, algumas palavras saíram, mas entre um e outro engasgo. Foi um dia difícil. Voltei pra casa com as mãos no bolso, olhando da janela e tentando entender sem fazer pergunta.





E eu não esqueço dela.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

We are the sleepyheads



Hoje vi esse filme zangado. De uma zanga bem parecida com a minha. Sabe birra, amargura, raiva, raiva mesmo do mundo. Pois é, ele é bem assim. Por vezes eu senti o cansaço de seus personagens, seu mal-estar do mal colocado, do incerto. A certa altura deste Ghost World, a personagem de Thora Birch alfineta como resposta a um amigo que resmunga o fato de não conseguir se dar bem com ninguém : “Só os idiotas têm bons relacionamentos!”. É, talvez Einid, a personagem de Thora, tenha razão, pessoas de verdade ( e não as de plástico que o Radiohead já cantou) só se estrepam, se fodem e se ferram. É isso aí, o filme foi oportuno na minha azedice, talvez daqui a uma semana eu o ache uma droga, talvez não. O certo é que os personagens são muito familiares, dolorosamente próximos na sua estranheza. Parece adolescente se sentir mal por não ter onde ir, por não querer ficar nem aqui, nem acolá, não querer quem te quer, e quem não te quer também. Parece adolescente, mas no filme de Terry Zwigoff estar ferrado é humano. Não é bem uma questão de escolha, é a falta dela.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007


Não canso de ouvir I'd rather dance with you do Kings of Convenience.
Experimenta ouvir e ficar sério. Experimenta ouvir e não querer ensaiar os mais desengonçados passos de dança.
Deliciosa!


Noite alucinada. Reencontrei meus meninos, meus garotos preferidos tão perdidos quanto eu naquela Universidade de merda, que a cada dia tem menos a oferecer. Até encontrar com eles hoje, era só no que eu pensava.

“Mas não é só isso
O dia também morre e é lindo
Quando o sol dá alma
Pra noite que vem


Vê, são tantas histórias
que ainda temos que armar
que ainda temos que armar”

Os maiores malucos, doidos, doidos, com canções e as idéias mais erradas e tontas do mundo, que nem as minhas. É bom se perder. Depois da noite, um texto bêbado pra esse blog pálido e tristonho. Juro, há dias sinto uma peninha dele assim...Não me peça reflexos nem bom senso. Não tenho eira nem beira, sempre fui assim, fui inventar de querer me encontrar, me estrepei e deu nisso. Mas é bom vir aqui, mais e mais percebo isso. A cabeça já dói um pouco, deve ser hora de dormir.

sábado, 10 de fevereiro de 2007


" ache belo tudo o que puder, a maioria das pessoas não acha belo o suficiente"



Van gogh me diz nessa noite esquisita, solitária. E eu me sinto tão só hoje que tomei as cartas que Van Gogh manda a Théo pra mim, é pra mim que ele fala hoje. De fato, é uma boa companhia, é um colo.

I always cry at endings


Voltei a chorar.



Eu não sou boa com essas coisas, é a verdade. Todo dia tem a hora do choro, é assim, eu dou umas boas risadas durante o dia, até voltar a ler Bukowski eu voltei, mas chega a noite e eu me encolho. Hoje foi canção dos Smiths, vai ser o que amanhã? Essa merda de blog não tinha o propósito de servir de desabafo mas a essa altura eu já não tenho mais propósito nenhum, eu sinto é raiva.



E eu odeio sentir. Sinto compaixão também, mas só às vezes, ela logo passa. Eu sei, caro raríssimo leitor, você não tá entendendo nada. Mas é simples, eu não sei lidar com fins, com o fato das coisas passarem, é isso. Não tem texto bonitinho e bem feito não. É só um texto raivoso e ressentido mesmo.

Pensando bem, acho que tanto o riso, quanto a dor é que na verdade as coisas não passam, elas ficam demais, bem que eles deviam passar tanto quanto parecem. Bem que deviam.







Uma das minhas canções preferidas de todos os tempos toca agora por aqui. Parece com a gente. Parece comigo.


There's a light that never goes out



Porque é a lei.
Quando se aprende a ser verdadeiro e não se desaprende mais o mundo fica estranho. Me sinto assim, à beira do abismo da verdade descabida e desmedida. Baixou a Carmem Maura que grita por água em dia de calor.


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

"Só a noite é que sabe que a vida não tem jeito"
Zeca Baleiro

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

"the best looking boys are taken/ the best looking girls are staying inside"



Dia de meninice. Isso de alguma forma deve ser bom. Como diz Tarkovski, mas dessa vez o pai, Arseni: "E eu sonho com outra alma vestida com outra veste". Quero uma mais alegre, de criança, que conta choro e não riso. Por isso Schiele e suas meias, saias e meninas.
Decidiram me emocionar, engraçado, em um dia, decidiram me dizer coisas bonitas e darem os olhares mais deliciosamente francos possíveis. É bom seguir assim, desse jeito eu até aguento a cidade, a saudade e as horas.

Vontade de comer waffles de morango.

A manhã foi deliciosa, a vida é cheia de ciclos e é fevereiro. Deito no chão frio pra ouvir Belle and Sebastian, o cd vermelho, e ficar tão emocionada como se fosse a primeira vez, e no rosto um sorriso que deve ficar mesmo sem rir.
Pensei que fosse chover, juro, com o calor que fez hoje, pensei que o céu fosse se render e mostrar que ele também não resiste, mas resistiu. É, dona chuva, fica pra amanhã, mas fica mesmo porque por aqui, por essas bandas mais quentes do mundo, chuva consola.
Fiquei bastante pensativa sobre as canções do Belle hoje, acreditem, fazia tempo que não ouvia, na verdade andei fugindo do que me emocionava demais, ficou a dança, a despretensão mas hoje voltei a encontrar Judy e o menino que faz errado de novo e foi bom, foi muito bom.






Chove. O céu é como eu, não resiste.

domingo, 4 de fevereiro de 2007


Mas às vezes, às vezes as pessoas salvam.

Preciso ir embora desse lugar.

domingo, 28 de janeiro de 2007

"O desejo não é de se brincar com ele. Ele é nós" Clarice Lispector

Sobre o filme de Lucrécia Martel.

Menina Santa é um filme sacana. Adoravelmente sacana, eu diria.


Vi esse filme já há algum tempo, mas depois de uma deliciosa conversa com um amigo esta tarde decidi me voltar a ele e às suas nuances. É bom voltar, afinal, um cinema significativo como esse é o que é pelo seu indefinido, infinito e interminável.

Apesar de não considerar este um filme meramente narrativo, posso dizer que sua história gira em torno de acontecimentos vividos durante a apresentação de um músico e de seu teremim. Teremim é um instrumento que soa sem ser preciso tocá-lo, mas sim através dos movimentos do músico. Nessa ótima idéia e numa bela construção de cena, surge uma das grandes sacadas do filme de Martel. O teremim é a alegoria do desejo, do desejo que paira, que está por toda parte, que não precisa do toque, que existe mesmo sem ser consumado. É o desejante, o desejado derramado na tela lindamente, desde a canção religiosa cantada no início, ao beijo trocado entre amigas. A diretora constrói um clima, uma atmosfera envolvente para tratar do desejo, do humano.
O que Martel filma é o por um triz, é o que pode ser desencadeado e faz jus as palavras de Antonioni que acredita que somos todos doentes de eros, por isso tanto desatino, tanto a se ganhar ou a se perder. Por isso a câmera de Martel não julga, é lindo ver isso, seus personagens agem, querem, mentem, abusam, mas ela os filme com a franqueza e com a atenção de quem respeita. Afinal, eles são nós.
Mas ainda há vida, muita vida.


É estranho como em momentos ruins o mundo se mostra e às vezes até sorri pra você. Talvez a minha descrença não tenha tanta razão de ser. Sim, há o ruim que passou mas as pessoas me apareceram esses dias, cheias de luz, com uma serenidade e um carinho que fizeram os dias ficarem tão melhores. É, pessoas de perto, amigos maravilhosos, alguns nem tão amigos assim mas que o olhar conforta. Tem gente de longe que acabou ficando e acho que desse lugarzinho ao meu lado não sai mais.

Essa postagem não é pra ser bonita, nem bem escrita, só franca mesmo. Como celebração a esse outro lado que se mostrar sobre a poeira.


E eu posso até sorrir.

sábado, 27 de janeiro de 2007

Morri um pouco hoje.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007


Noite.

Já estou até sonolenta mas os pensamentos me pegam e deu vontade de vir aqui falar de mim pra poucos estranhos e alguns conhecidos, já que quase ninguém lê esse blog. É quase como conversar comigo mas eu faço e é gostoso. Essa paginazinha branca é agradável de preencher.
Eu ando agoniada, passou, passou, a serenidade de alguns posts anteriores se foi e eu ando inquieta, ainda mais com o sol que vem batendo aqui. É sério, parece até setembro, quente demais, e eu não sei onde colocar os pensamentos, nem sei onde pôr as mãos também, mas isso, mas isso já é de praxe.


Na real, eu vim aqui, mas não tinha nada de novo ou interessante pra dizer, só que é noite, ainda faz calor e eu não quero ir dormir, não com meus pensamentos.


Pra diabos serve um blog? Eu tenho um diário, um caderninho vermelho bem mais franco e bem menos organizado que isso aqui, que diabos eu venho tentar desabafar aqui se eu nem tenho coragem? Que diabos eu venho fazer aqui se eu só sei dizer que amo e quero bem? Ah! É tudo a mesma coisa, odeio me repetir mas faço, e faço muito. Você, senhor raríssimo leitor, que chegou até aqui, pode parar, não tem mais nada, como não teve. Eu tô com sono mas eu sei que ainda vai ter um encontro com o teto que prefiro adiar.

Será que me rendo agora? Quem sabe.

"Se você se sente sinistro..."

sábado, 20 de janeiro de 2007

Delicadeza


É engraçado como a simples presença de algumas pessoas pode ser enternecedora.

Assim como já falei aqui da saudade que sinto de Tarkovski, ( saudade mesmo, como de quem você conheceu, viveu e não se recupera nunca) ontem me peguei emocionada com o simples fato de ver Manoel de Oliveira, este grandioso criador português. Grandioso sim, em capturar nossas minúcias, pequenices (não pequenezas) e guardá-las, capturá-las e nos mostrar um mundo novo. Em seu mundo de mãos, olhos e sapatos emocionados, Oliveira consegue com a simplicidade do seu olhar um resultado tão devastador que impossibilita a imunidade. Fico aqui às voltas com imagens suas que me vem e não esqueço.

Em um documentário de Maria de Medeiros sobre os bastidores da criação cinematográfica e crítica, ao ser questionado sobre o que o artista arrisca com seu cinema ele responde.

‘Tudo’

Ao ver um filme de Oliveira, me dou conta que ele sim, arrisca tudo. É uma vida que está ali, é um olhar despido, entregue ao homem e a sua compreensão.

Fico aqui com pensamentos ternos sobre a vida, a arte e o humano. Obrigada Manoel!

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

Caetano canta amor desencontrado e o desejo do encontro e eu me derreto toda por aqui.

O quereres

Onde queres revólver sou coqueiro, onde queres dinheiro sou paixão
Onde queres descanso sou desejo, e onde sou só desejo queres não
E onde não queres nada, nada falta, e onde voas bem alta eu sou o chão
E onde pisas no chão minha alma salta, e ganha liberdade na amplidão

Onde queres família sou maluco, e onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon sou Pernambuco, e onde queres eunuco, garanhão
E onde queres o sim e o não, talvez, onde vês eu não vislumbro razão
Onde queres o lobo eu sou o irmão, e onde queres cowboy eu sou chinês

Ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato eu sou o espírito, e onde queres ternura eu sou tesão
Onde queres o livre decassílabo, e onde buscas o anjo eu sou mulher
Onde queres prazer sou o que dói, e onde queres tortura, mansidão
Onde queres o lar, revolução, e onde queres bandido eu sou o herói

Eu queria querer-te e amar o amor, construírmos dulcíssima prisão
E encontrar a mais justa adequação, tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés, e vê só que cilada o amor me armou
E te quero e não queres como sou, não te quero e não queres como és

Ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper vídeo, e onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua eu sou o sol, onde a pura natura, o inceticídeo
E onde queres mistério eu sou a luz, onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro, e onde queres coqueiro eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal, bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal, e eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo te aprender o total do querer que há e do que não há em mim

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

What will happen in the morning when the world it gets so crowd and you can't look out the window in the morning?
Nick Drake

sábado, 30 de dezembro de 2006

"Para o que não tem mais razão a calma do louco ensinou a dizer nada" Milton Nascimento

Chegou o vento por aqui e conversando com minha melhor amiga esse dias penso numa estranha paz que me tomou nesse fim de ano. Deve ser porque as pessoas que eu amo estão bem, sorriem, sorriem.

Não sei, a vida deve ser feita de círculos invisíveis em que eu choro, choro e volto a sorrir num fim de ano que venta, venta agradavelmente por essas bandas do país. E as canções chegam leves junto com ele. Não sei quanto esse barato dura, espero que por um tempo e por mais que não continue igual um pedaço dele ainda fique pra eu esperar por sua volta e pelo sorriso das pessoas queridas. Dele, dela, deles.


"É la que eu vou pegar um barco,
E descer o rio Paraguai
cantando as canções que não se ouvem mais"

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Canções pra viver mais


Nietzsche estava certo sobre a tristeza de uma vida sem música. Eu nem sei bem como seria pra mim, eu fujo e me recolho nas canções, nas minhas canções de ontem, de hoje e nas de amanhã também que eu ainda nem sei que ouvirei.
Nos últimos dias , semanas, fui capturada por uma banda em que um rapaz tímido de cabelo preto canta, encanta e leva pra casa, é, é o que James Mercer, vocalista da banda The Shins faz. Ele canta e te leva pra casa.
Eu fico aqui inventando umas maneiras bobas de dizer o que as canções querem dizer pra mim, deve haver outro jeito de fazê-lo mas eu só sei esse jeito tonto e franco mesmo, como uma boa canção. Mas sobre esse grupo, eu só posso pedir pra que você tente ouvir uma canção deles, qualquer uma sem esboçar o mais leve e gostoso sorriso. Mágico o que uma canção pode fazer por você, né? Eu penso muito nisso. Clima, lugares que você pode ir, e parece bobagem dizer mas as calçadas úmidas de Glasgow já ficaram mais próximas com as canções do Belle tocando por aqui.


Ando por aí procurando as melodias mais deliciosas e envolventes possíveis. Deve ser pra eu viver mais.


Fico com Shins, Belle, meus cantadores aqui mais de perto e com qualquer um que faça música que salva.

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

"Um sol rodando vermelho/ Um sol pregado no azul/ Um sol rodando no céu/ Um sol suspenso no ar"

Dias bonitos em que eu aprendi a ver o que já conhecia com outros olhos, despidos de tudo.

Fui a Serra, fui a cidade da minha infância com outras pessoas, pessoas queridas, outras nem tanto, mas fui. A cidade está estranha, as pessoas já não são mais tão conhecidas e eu, assim como ela, mudo. Mudo pra construir novas lembranças pra ficar. Não que as novas cubram aquelas de menina que brinca na rua. Essas eu ainda adoro. Mas quero mais, sempre quis.
Agora me pego com saudade, sinto falta da natureza, do clima de encontro, de pessoas de toda parte e das canções que ouvi um novo amigo cantar. Canções de Elomar, Xangai e Caetano em um dia de chuva. Sinto falta do céu mais estrelado que já vi, de cortar o coração de tão lindo. Não, não esqueço.


Penso na mata, na chuva batendo nas pedras. Penso na natureza.


MATANÇA
(Jatobá/ Xangai)

Cipó caboclo tá subindo na virola
Chegou a hora do pinheiro balançar
Sentir o cheiro do mato da imburana
Descansar morrer de sono na sombra da barriguda
De nada vale tanto esforço do meu canto
Pra nosso espanto tanta mata haja vão matar
Tal mata Atlântica e a próxima Amazônica
Arvoredos seculares impossível replantar
Que triste sina teve cedro nosso primo
Desde de menino que eu nem gosto de falar
Depois de tanto sofrimento seu destino
Virou tamborete mesa cadeira balcão de bar
Quem por acaso ouviu falar da sucupira
Parece até mentira que o jacarandá
Antes de virar poltrona porta armário
Mora no dicionário vida eterna milenar

Quem hoje é vivo corre perigo
E os inimigos do verde da sombra, o ar
Que se respira e a clorofilaDas matas virgens destruídas vão lembrar
Que quando chegar a hora
É certo que não demora
Não chame Nossa Senhora
Só quem pode nos salvar é

Caviúna, cerejeira, baraúna
Imbuia, pau-d'arco, solva
Juazeiro e jatobá
Gonçalo-alves, paraíba, itaúba
Louro, ipê, paracaúba
Peroba, massaranduba
Carvalho, mogno, canela, imbuzeiro
Catuaba, janaúba, aroeira, araribá
Pau-fero, anjico amargoso, gameleira
Andiroba, copaíba, pau-brasil, jequitibá

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

'da beleza das imagens que não se encerram'


Gosto de filmes de amor. Ponto.

Eu nem sei por que digo isso assim, agora. É algo fácil de descobrir sobre mim. Muito fácil. Basta olhar pra alguma lista de filmes minha, ou ainda, olhar pra mim enquanto vejo um deles.

Começo assim pra falar de um belo filme de amor. O filme começa cheio de verde. Engraçado, quando penso nele, lembro sempre do verde do grande campo que o diretor filma. Há um homem, um homem já maduro, há junto com ele uma criança, um menino tão pequeno e inquieto que de cara já fica difícil não querer olhar pra ele, sempre. Há também uma árvore, uma árvore e o verde ao redor. Não um verde alto, verde de grama, do grande campo mostrado em plano aberto. Pronto, assim começa o filme de nome O Sacrifício(Offret), dirigido pelo mestre Andrei Tarkovsky.


Saudades dele.


Sinceramente, eu não tenho muitas certezas sobre esse filme para falar. Os filmes de Tarkovsky me deixam cheia de incertezas e talvez por isso sejam tão bons. Eu sinto. Você sente e é isso. As imagens arrebatam e a respiração fica difícil e assim ele fica, fica. Torna-se eterno.
Talvez eu devesse deixar de ser tonta e parar de falar sobre ele. Mas eu bem que queria, mas ele é bonito de mais pra eu ficar aqui calada. Como ficar calada se há o homem, o menino, a mulher, a casa? Há uma casa de cores mortas, sóbria. Não podia esquecer da casa.

E há Tarkovsky.

Em cada fotograma, ele e sua despedida desse mundo. Ele morreu logo após as filmagens, sem tempo para ver o trabalho realizado. Dedicou-o a seu filho.. Ele fala de seu filho e de sua esperança. Esperança essa que quem tem um filho no mundo tem que ter, antes que enlouqueça.

Há ainda a temática da ruptura, da necessidade de mudar. O homem descobre que tem que pôr tudo abaixo pra começar de novo. Destruir pra acontecer, pra criar, nascer uma vida nova. Essa vida que por enquanto só seu filho traz. Parece simplista, mas esse filme é sobre fazer as coisas. Mas trata-se de Tarkovsky, então é por meios bem pouco óbvios que chegaremos a uma conclusão como essa. Depois de algumas imagens não nos sair da cabeça. Depois que elas nos tomam, bem depois, enfim, posso falar de algo como isso.


É, trata-se de um filme de amor. É o do amor do seu diretor ao seu filho, à natureza, à vida. Seu filme de amor à vida que iria deixar.


Inesquecível.