@ tainah negreiros

sábado, 4 de outubro de 2025

lavar o cabelo enquanto em Gaza

todo dia é o fim do mundo para alguém
para muita gente
em Gaza, para gente demais
demais

todo dia é o fim do mundo para alguém
para muita gente
para um animal pequeno
um gato, um cachorro
uma galinha
uma vaca de olhar adorável
uma menina, um menino
um homem adulto e jovem (que não cabe nos discursos pacifistas)
que ama alguém, que é amado

todo dia um esquema
um plano de alguém sem rosto
para confinar
aniquiliar
todo dia

todo dia eu sinto cada um que sente
e como é difícil
e como é insuficiente
como é pouco o poema
como é pouco
quase nada

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Haut bas fragile (Jacques Rivette, 1995)


 Encontrar alguém que se procurava por muito tempo.

domingo, 27 de julho de 2025

As pernas falham

Uma mulher caminha devagar pela calçada em uma rua florida de um bairro de Lucerna, na Suiça, o país mais rico do mundo. O peso do corpo da mulher começa a pender para o lado direito até que finalmente ela cai sentada na grama verde e bem aparada. De longe, um homem corre até ela, a cerca com os braços ajudando-a e pergunta -Você está bem, senhora? O que houve? Ela responde sem forças: - É Gaza.

domingo, 15 de junho de 2025

existe um som específico
precioso
dos pássaros
depois da chuva
que atravessa a música que ouço
e que já ouvia há muito tempo

existe um ruído raro
vindo não sei da onde
de uma outra dimensão desconhecida
misteriosa
mágica
da minha esperança



quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Severino 75

 no dia 5 de fevereiro

aniversário dele

mais uma vez

boto uma canção brasileira para tocar

para poder alcançá-lo

como uma rádio

como uma sintonia fina

na imensidão do misterioso mundo

e renascê-lo, recriá-lo, 75 anos depois

pra dizer “pai” pra ele
e poder dizer “pai” pra ele
e cantar desafinada de novo a música brasileira bonita
e sentir que a mágica do mundo existe sim
e compreender a mudança,
o estar no mundo de outra maneira.


o dia 5 de fevereiro é um milagre 

brasileiro
maranhense
nascimento de Severino, que via o mundo

na justeza de seu signo de aquário

com olho pássaro

com olho gato

com braços árvore

coração abacate.

penso que

quem sabe no encadeamento de uma letra na outra, no ritmo de uma palavra na outra

Severino 75 escute, me leia, vibre, sorria e siga encantado

e vivo

e viva!


domingo, 29 de dezembro de 2024

poema de amor ao pai


no filme de sidney lumet o personagem do judd hirsch diz “vai” para  river phoenix como meu pai dizia

ainda no filme belo
uma caminhonete gira ao redor do river não uma
mas duas vezes enquanto toca a canção do james taylor

como um abraço

nesta noite eu procuro uma canção
uma cena de filme
uma sintonia fina

eu só queria muito poder ouvir de novo

severino me chamando

eu no cômodo de cima 

ele no de baixo

e no ar

a voz dele

sempre ela

dizendo

Tai


quarta-feira, 16 de outubro de 2024

o ipê

se eu ficar a noite acordada de frente para a árvore eu vejo essa flor de ipê abrir?
ontem quase nada
pela manhã alguns bulbos
agora à noite, muitos
prontos para abrirem quando não vemos


maravilhosa discrição


se aproveitam da distração humana
do correr do dia
e da calma da noite, em são raimundo
para se abrirem


quando a saudade do meu pai é tamanha
e estou aqui
seguro os galhos secos do ipê na frente da casa
como se segurasse os braços dele
até sentir a presença misteriosa 
os jeitos dele ser agora
no mundo
de existir agora
no mundo

penso nele todo dia
a música popular brasileira é toda ele
e esse ipê
que teima em florescer nessa secura
é a vida teimando em ser

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

 Tava vendo o filme do Victor Erice e a gata me chama na porta. Não era comida que ela queria, era me mostrar algo. Foi me conduzindo pelo jardim da casa enquanto olhava alguma coisa invisível que quero acreditar que era meu pai. Com meus próprios braços me abracei sem que percebesse, procurando ele e encontrando.

sábado, 9 de dezembro de 2023

a árvore

 Hoje quis tanto pode tocar meu pai que segurei com as mãos dois galhos secos de ipê como se fossem ele. Ele amava ver os ipês florescerem e mudarem a paisagem. 

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

o radialista

queria poder alcançar meu pai em uma frequência
como quem sintoniza uma rádio

terça-feira, 3 de outubro de 2023

easy
my man and me
we could rest and remain here, easily
we are tested and pained by
what's beyond our bed

we're blessed and sustained by
what is not said

no one knows what is coming
or who will harvest what we have sown
or how I've been dulling and dumbing
in the service of the heart alone

or how I am worn to the bone by the river
and in the river, made of light
I'm your little life-giver
I will give my life


sexta-feira, 22 de setembro de 2023

La Belle Noiseuse (Jacques Rivette, 1991)

 


Os imensos filmes alteram completamente a cinética e a percepção de quem os vê logo em seguida. Depois de ver "La Belle Noiseuse" tive vontade de comer algo gostoso e belo ao mesmo tempo. No mesmo dia em que vi "La Belle Noiseuse" eu comi figo fresco pela primeira vez e fiz uma torta de figo adocicada e salgada. Fiz bem devagar como que afetada pelo estado de integridade do gesto, do ímpeto e da construção que Jacques Rivette opera em parceria com Jane Birkin, Emmanuelle Béart, Michel Piccoli, William Lubtchansky, Emmanuel de Chauvigny, Christine Laurent, Pascal Bonitzer e Igor Stravinski. Com esse filme há sempre a sensação de enormidade das capacidades do cinema. O que o tempo e maneira do filme faz com o gesto do artista? O que o tempo e a construção fazem com a percepção que temos do corpo de Marianne e de Marianne além do corpo? E em quem ela, para além do corpo pintado visto, contorcido e retratado, vai se transformar menos e mais encoberta fisicamente e metaforicamente? Como através do que constrói Rivette conseguimos intuir a força, vulnerabilidade e crueldade de Liz e tudo que está implicado no encontro e na possível perda de Fenhofer? Como, em meio a centralidade do gesto e da criação de Fenhofer, Rivette sublinha uma conexão e os olhares das mulheres sempre retratadas, as trocas misteriosas entre elas. Que tipo de coisas elas criam? O que elas criam ali cria também para o cinema? É um assombro o que o filme descortina e não descortina jamais.

quarta-feira, 28 de junho de 2023

há um momento após desviares o olhar
em que te esqueces de onde estás

pois tens vivido, parece,
noutro lado, no silêncio do céu nocturno.
 
deixaste de estar aqui no mundo.
Estás num lugar diferente,
um lugar onde a vida humana não tem sentido.
 
não és uma criatura num corpo.
Existes como as estrelas existem,
participando na sua quietude, na sua imensidão.
 
até que volta a estar no mundo.
de noite, numa colina fria,
a desmontar o telescópio.
 
só depois percebes
que não é falsa a imagem
mas a relação.
 
vês de novo como cada coisa
fica tão longe de todas as outras.

(Telescópio, de Louise Gluck)
 

domingo, 18 de junho de 2023

Salve-se Quem Puder (A Vida), de Jean Luc Godard (1979)

 






"Salve-se Quem Puder" é uma outra forma de dizer capitalismo. "A vida", ou qualquer coisa muito muito bonita e fora da ordem no meio desse estado de coisas, vem de Godard.

sábado, 15 de outubro de 2022

Petite Solange (Axelle Ropert, 2021)



 "Conheço o fundo doloroso das coisas, não conheço mais nada." (João César Monteiro)

"Tanta coisa que então eu não sabia. Nunca tinham me falado, por exemplo, deste sol duro das três horas. Também não me tinham avisado sobre este ritmo tão seco de viver, desta martelada de poeira. Que doeria, tinham-me vagamente avisado." (Clarice Lispector)

Olhar Solange existir só perde em potência pra quando vemos o que Solange vê. Eu ainda estou tentando entender o que exatamente está contido no ponto de vista de Solange criado por Axelle Ropert, principalmente quando ela olha para família, quando vemos mãe, pai e irmão no mesmo plano através dos olhos dela. É o olhar doloroso do amor familiar e do lamento de alguma coisa qualquer que está se perdendo, que está sempre se perdendo no mundo do amor, e que Solange vivencia intimamente de maneira dolorosa e única.

Na primeira calmaria depois do início do processo de separação da mãe e pai de Solange, e também dela e do irmão Romain, ela conta para aquele que é seu interesse amoroso sobre uma viagem que a família toda vai fazer para a Sicília. O rapaz a escuta e pergunta "Você é apegada a sua família né?" É, ela é, pensamos junto com Solange e recapitulamos toda a jornada afetiva que o filme vem acompanhando e que ele vive inteiramente, profundamente e dolorosamente. A pergunta do rapaz que mal a conhece sintetiza isso mas também o modo como Solange põe as flores no jarro em total não aceitação do fim daquela casa. Ela vai, volta e conclui: "Ninguém tinha me dito o quanto poderia ser difícil viver." E é. E é.

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

La bande des quatre (Jacques Rivette, 1989)


Tudo no filme se converte em encenação, é no teatro que ele se funda e é no teatro que ele se resolve. A professora de teatro e as alunas inventaram um mundo de mulheres em que elas circulam, em que elas são mais de uma o tempo inteiro, universo impenetrável por homens mas que eles existem através delas. Um mundo contra prisão. Algo que faz com o que "La bande des quatre" se encaminhe para uma das dedicatórias mais lindas da história do cinema, se não, a mais bela.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Drive My car (Ryusuke Hamaguchi, 2021)





O que um gesto superficial (todo gesto é superficial mesmo que se transforme em outra coisa e daí nasce o teatro e depois o cinema) ou uma palavra (entonação, encadeamento com outras, gesto que a representa) diz sobre o mistério que é cada pessoa? Como vamos atuar a partir desse mistério? Como vamos transar? Como vamos dançar ou sermos incapazes de fazê-lo? Como vamos dirigir? Como vamos sobreviver? Seguindo, como recomenda Sonya, em Tio Vania. 

Dos mais bonitos filmes que já vi.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021


 O vôo vermelho (acrílica e aquarela sobre papel 30 x 42 cm)

mais pinturas que fiz aqui: https://tainahnegreiros.myportfolio.com

terça-feira, 10 de agosto de 2021

 


É na imprecisão da comunicação de Hanne que reside a ambiguidade dos Contos de Julho, de Guillaume Brac. A angústia final dela talvez venha disso. Na confusão com as questões da ordem do coletivo, a impressão é de que Hanne deseja profundamente poder ser confusa, equívoca, indecisa, ambígua, suscetível sem que isso queira dizer imediatamente um interesse sexual, um sim, mas somente uma manifestação da sua liberdade.

terça-feira, 20 de julho de 2021


Há alguma coisa sobre família ou sobre a incompreensão da aventura de cada pessoa que esbarra no amor familiar. As aproximações e reaproximações são dolorosas, cheias de passado. De alguma maneira, manter alguma distância nos vínculos dessa natureza parecem uma forma de sobrevivência neste filme, ou um caminho para uma liberdade qualquer.

É como quando o Young-Ho, o protagonista, decide não interromper o momento pensativo e solitário da mãe. Tudo está contido naquela decisão e na rebeldia que o acomete com essa distinção.
Trata-se de uma coleção absurda de intimidade que não podemos ver mas adivinhamos pelas superfícies que Hong Sang Soo nos oferece. Da materialidade da realidade à materialidade do sonho (que também é vida vivida, é realidade, como diz Preciado) os personagens se expandem. Imenso.