@ tainah negreiros

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Nunca nos dissemos a palavra amor. Isso se deslizava, como de contrabando, quando dizíamos: "Chove", ou dizíamos: "Sinto-me bem" mas eu teria sido capaz de meter-lhe uma bala na memória para que não lembrasse nada de nenhum outro homem.

- Alguma vez - dizíamos- , quando as coisas mudarem.
- Vamos ter uma casa.
- Seria lindo.
Por algumas noites pudemos pensar atordoados, que era por isso que se lutava. Que para que isso fosse possível é que as pessoas se atiravam na luta.
Mas era uma trégua. Logo soubemos, ela e eu, que antes disso iríamos esquecer um ao outro ou morrer.

- Aqui ninguém encontrará você. Fica, até que as coisas mudem.
- As coisas mudam sozinhas?
- O que você vai fazer? A revolução?
- Eu sou uma formiguinha. As formiguinhas não fazem coisas tão grandes como a revolução ou a guerra. Levamos pedacinhos de folha ou mensagens. Ajudamos um pouco.
- Folhinhas, pode ser. Ficaram algumas plantas.
- E algumas pessoas.
- Sim. Os velhos, os milicos, os presos e os loucos.
- Não é bem assim.
- Você não quer que seja bem assim.
- Mas você quer me dizer como é que se acaba uma ditadura? Com flechinhas de papel?
- Com o quê, eu não sei.
- Daqui, se acaba com uma ditadura? Por controle remoto?
- A heróina solitária busca a morte. Não, não é machismo pequeno burguês. É feminismo.
- Sabe de uma coisa? Estamos todos desamparados.
- Sim.
- Todos. Desamparados.
- Sim. Mas eu gosto de você.

(Eduardo Galeano em A moça com a cicatriz no queixo )
(1974)

2 comentários:

Ana Luísa Guimarães disse...

Não conhecia e me encantei.

ela, eu, nós, todos nós disse...

e foi você quem me apresentou o Galeano!...

beijos que abraçam!