@ tainah negreiros

domingo, 19 de março de 2017

Há alguma coisa nessa mulher retratada por Manet que eu gostaria de ser e existe alguma coisa no mundo ao redor dela que eu gostaria que fosse meu mundo. Mas é algo em volta que só existe pelo modo que ela se comporta, pelo que ela manifesta e é. Essa mulher está bem. Nos desafia. A certa altura comeu vivo o pintor e ela é mais que uma existência plástica, é uma proposta de existir.

sábado, 18 de março de 2017




declare independence
don't let them do that to you

quinta-feira, 16 de março de 2017

Me aconteceu algum tipo de milagre hoje e posso com clareza atribuir às crianças da lumiar.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Uma cena nos últimos dias de aula na Lumiar ano passado tem me acompanhado. Estávamos todos nos despedindo, escrevendo mensagens em camisetas, cartas de baralho e no meio da confusão virei para André e perguntei se ele iria sentir falta daquilo. Ele me encarou sério e disse: "Vou." Era seu último ano e por muito tempo a ideia de sair da escola parecia um alívio mas algo foi se transformando e alguma coisa o foi enternecendo e resultou naquele "Vou." Senti saudade e fiquei feliz de saber que ele tem aparecido.

domingo, 12 de março de 2017


o homem que não sou dorme
parece não se preocupar
gosto dele porque dorme, porque não se preocupa
e porque não sou
não gosto porque homem

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017


Toni Erdmann é um sonho. Sonho antigo e ao mesmo tempo cotidiano meu. Às vezes assisto tv esperando que a apresentadora do jornal faça algo diferente. Me acontecia na escola sobre os professores, em uma assembléia, ou em qualquer ambiente mais formal. Frequentemente espero dos outros e de mim pequenas rebeldias transformadoras de uma ordem bastante pessoal que persiste. Esse filme realiza esse sonho. Muda tudo.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

severino quer dizer austero.
por precaução,
ele segue o que sugere seu nome.
é de um rigor visível
que tem por trás
a imensa fragilidade
e doçura.

o frágil e o doce são o interior
e a dureza superfície.
o ensinamento que dele sempre brota
conforme ele aprendeu e acredita
é amor manifesto

(para o meu pai que amanhã completa 67 anos)
com sonho e chuva
você sonhava que ia ser melhor depois

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Vien, Vien!
O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.

Ítalo Calvino - As cidades invisíveis

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Guernica

Um filme doloroso por seu tema mas também porque para vermos plenamente os quadros de Picasso, aqueles mais belos que retratam arlequins, crianças, ciganas, temos que imaginar ou buscar na memória a cor.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Certamente dos aspectos que mais admiro nos escritos de Eisenstein é a relação entre montagem e atuação. Mais especificamente a busca da montagem no trabalho do ator, no rosto, no gesto exagerado ou mínimo, nessas outras possibilidades maravilhosas em que a orientação do olhar pode acontecer. Penso nas atrizes e atores incríveis do meu filme preferido dele, Ivan. Mas claro que também penso na dona da minha cabeça, Sabine Azèma, e em todos os instantes em que ela guiou meu olhar pra onde queria a partir de aparentemente tão pouco. Penso no momento de Ervas Daninhas em que o personagem de André Dussolier lhe pergunta "Então você já me ama?" e ela só olha com um quase sorriso e nega mas não nega sem dizer nada.

dominada pela loucura de querer ler tudo por nenhuma razão exceto pelo espírito.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Aquele homem me chama pra luta como em uma canção do Leonard Cohen. É jovem, acredita em muitas coisas. Ri de tudo. É leve. Aquele homem não sou eu. Eu sou cada vez mais ninguém.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

River e Eu


Senti que hoje eu deveria falar da minha relação com  River Phoenix.

Tudo começou com uma intuição da minha mãe. Quando eu era muito pequena eu ouvia bastante um vinil duplo do Milton Nascimento que meus pais tinham em casa. Naquela época, com uns sete, oito anos, me interessava mais pelo apelo de Canção da América e Paisagem na Janela. Mamãe tinha uma sugestão a me dar sobre o disco: "Ouve essa música linda que ele fez pro o ator River Phoenix, filha". Ela me disse isso mais de uma vez. Me descreveu o River de um modo simples mas que eu nem suspeitaria que ia fixar: "Cabelo e pele queimados de sol". Com a  teimosia de sempre, não ouvi a canção naquela ocasião.
Anos depois, quando eu tinha uns doze anos, assisti "Conta Comigo" na sessão da tarde. A presença do menino de olhos miúdos, com "cabelos e olhos queimados de sol" me comoveu. Lembro claramente do momento em que pensei. "Era desse menino que a mamãe falava, o da canção do Milton" Eu não sabia de nada do filme, não tinha visto os créditos, nada, foi uma intuição. Lembro de um certo assombro ao descobrir que se tratava dele mesmo. Já sendo uma pequena mística, entendi que o que se deu foi que eu tinha mesmo de conhecê-lo, que a vida persiste com as coisas tem que acontecer.
Esses dias li o depoimento do Milton Nascimento sobre quando o viu pela primeira vez em um filme e me lembrou a minha experiência:

"Numa tarde qualquer, estava lá vendo tv no hotel quando começou um filme: The Mosquito Coast. O nome de River Phoenix nos créditos logo chamou minha atenção, mas até então eu nunca tinha ouvido falar dele. Quando acabou o filme, fiquei prestando atenção nos créditos e, para a minha surpresa, o ator que eu mais tinha gostado era justamente River Phoenix. Nesse mesmo dia, também passou outro filme dele na TV: Stand By Me. Fiquei tão impressionado que decidi escrever uma carta pra ele. Foi quando surgiu uma música pronta na minha cabeça. Coloquei o nome: "River Phoenix (Carta a um jovem ator)."

Só fui ouvir a canção nessa ocasião assim que vi Conta Comigo. E então a letra e a recomendação da minha mãe fizeram todo o sentido. A conexão foi imediata com ele e com o que Milton dizia sobre ele. Passei a fazer uma pesquisa pré-internet e reuni uma série de matérias sobre ele. Achei muitas notícias da época de sua morte, 1993, montei um arquivo, li sobre seu vegetarianismo, suas motivações e desde então parei de comer carne. Até que veio Running on Empty, o filme de Sidney Lumet que mudaria a minha vida e seria importantíssimo para o que eu sou até hoje.

Durante algum tempo achei que o filme que Milton "viu tantas vezes" tinha sido esse.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Quase fim de 2016 e estou aqui chorosa ouvindo "Fire and Rain". Todo final de ano costumo assistir "Running on Empty" e nesse não fiz isso. Hoje dei de cara com o tuíter da Martha Plimpton. Ela segue a mulher durona e interessante que sempre foi. Penso no filme, penso no River, penso em 2016. Esse filme sempre dá um jeito de me encontrar nessa época.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

A Cor da Romã



Paradjanov entendeu que o rastro de cor que a romã deixa é o mesmo que o de sangue. E os dois tem a cor de olhos emotivos.

sábado, 24 de dezembro de 2016

10 anos de blog

a ciência da abelha, da aranha e a minha
muita gente desconhece

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

do aluno Raul: Tainah, a gente pode se falar pelo skype no Natal? Quero te fazer uma apresentação especial no piano da música que estou aprendendo. Surpresa.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Tarde nublada em Teresina. Eu na rede. Mamãe e papai no sofá. Faço uma espécie e leitura coletiva da biografia de Clarice. Me sinto bem.
É preciso ser muito feliz para viver numa cidade pequena, pois ela alarga a felicidade como alarga também a infelicidade. De modo que vou morando aqui no Rio. Você sabe, nas cidades grandes todos sabem que em cada apartamento existe uma espécie de solidariedade, pois em cada apartamento mora uma pessoa infeliz.

(Clarice)

domingo, 11 de dezembro de 2016

she's gone
says she can walk now
se você ainda estivesse por aí
eu te segurava
te sacudia pelos joelhos
soprava ar quente nas tuas orelhas

você, que escrevia como um Gato Pantera
o que quer que corra em suas veias
que tipo te sangue verde
te levou à tua sina

se você ainda estivesse por aí
eu rasgava teu medo
deixava ele pendurado fora de você
em longos riachos
fios de pavor

te virava
encarando o vento
dobrava tua espinha no meu joelho
mascava tua nuca
até que você abrisse a boca para esta vida

Sam Shepard, 31/01/80
homesteady valley, california

sábado, 10 de dezembro de 2016

Consolada por Alberto Caeiro que diz que morrer é acordar de outra maneira.

domingo, 4 de dezembro de 2016

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

todo quadro negro é todo negro
é todo negro
e eu escrevo seu nome nele
só pra demonstrar o meu apego
Essa noite sonhei com as crianças da Lumiar. A turma em um ônibus de viagem, depois em uma gincana. Cada vez mais só tenho sonhado com o que amo.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Mais um belo dia na Lumiar. Daqueles em que tudo que pode ser bom é. A turma dividida em dois grupos, um defende argumentos da direita, outros da esquerda. O debate não podia ser mais acalorado e bem humorado. Lá é o lugar onde a leveza se instala, até nisso, até quando diz respeito a um tema como esse. Ríamos alto com os cacoetes dos dois lados, pendíamos mais pra um, claro, uma alegria.
Depois ganhei abraços, dei e ganhei carinhos, também um desenho, ouvi reivindicações da volta dos meus vestidos floridos,  recebi pedidos para ler escritos deles, ver videos, ouvir impressões. Eu me importo com as crianças,com as colegas e os colegas, elas se importam comigo. Daí surgem as melhores relações.

sábado, 26 de novembro de 2016

Como uma criança antes de a ensinarem a ser grande,
fui verdadeiro e fiel ao que vi e ouvi.

Alberto Caeiro

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Elle (Paul Verhoven, 2016)


"Sei que tenho uma capacidade de interpretar algo bastante opaco e ao mesmo tempo muito frágil." Disse Isabelle Huppert em entrevista há alguns anos, mas que se aplica mais uma vez a sua personagem em Elle, de Paul Verhoven.

Michéle, a personagem de Huppert, tem seu destino marcado por figuras masculinas terríveis ( o pai assassino, o estuprador) ou ridículas (o marido fracassado, o filho bobalhão, ou os profissionais vaidosos de games da sua produtora). No entanto, mesmo cercada e constituída por essas presenças, o filme inteiro gira em torno de suas vontades que se sobrepõe a essas figuras, tudo isso apresentado por Verhoven de modo que nos afaste de um julgamento e nos aproxime da humanidade da personagem. E não só ela, mas as mulheres do filme tem seus desejos bastante demarcados e cumpridos, mesmo que não queiram dizer exatamente o lhes seria melhor. A ambiguidade do querer também é tema desse filme e as personagens estão carregadas dela.

Michéle assegura que o jogo de videogame a ser desenvolvido será o que deseja, dorme com os homens que gostaria, persegue o que a violentou, diz o que pensa sobre o filho, tudo de uma maneira que ganha força pelo procedimento de atriz descrito por Isabelle no início.

O cineasta filma tudo variando entre uma absurda elegância, que Huppert estimula, e ecos de Wes Craven que deixam essa história de estupro ainda mais perturbadora. Reverberações encontradas nas belas casas inseguras com suas com portas de vidro, o perigo dentro dessas casas mesmas e a presença dos sustos-som que voltam com força e compõe esse cenário que cerca Michéle. "Ela". (Parece importante sairmos do imediato e traduzirmos o título do filme para o português assim bem simplesmente de modo a pensar como o filme pode ser sobre Ela, em torno dela, das questões dela, do passado dela, da mãe dela, do desejo dela.)

Pensei em Wes Craven com muito prazer, pensei também em Catherine Breillat, não só no último filme mas nessa demarcação de desejo feminina, nessa viagem ao profundo dos nossos quereres mesmos que não sejam o que soa melhor.

A certa altura há essa intrigante conversa entre Michéle e sua amiga Anna, a imensa Anne Consigny:

Anna
Senti vergonha mas não foi suficiente para não fazer aquilo.

Michéle
Vergonha não é algo forte o suficiente que nos impeça de fazer qualquer coisa.

Cito as duas personagens porque é na relação entre elas que mais me agarro com os olhos e coração ao filme.  Em meio às mentiras e questões mal-resolvidas há uma cumplicidade que atravessa e diz desses dois mundo que são postos. O masculino e o feminino.

Agora já no fim da escrita desse texto penso em Leonard Cohen, em "There is a war". " There is a war between the man and the woman." Pra falar dessa guerra cheia de acordos incompreensíveis no meio, Verhoven precisou de Huppert, de Consigny, o filme é também delas, do registro da radical satisfação de suas vontades.


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

domingo, 13 de novembro de 2016

Criança desconhecida e suja brincando à minha porta,
Não te pergunto se me trazes um recado dos símbolos.
Acho-te graça por nunca te ter visto antes,
E naturalmente se pudesses estar limpa eras outra criança,
Nem aqui vinhas.
Brinca na poeira, brinca!
Aprecio a tua presença só com os olhos.
Vale mais a pena ver uma cousa sempre pela primeira vez que conhecê-la,
Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez,
E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar.
O modo como esta criança está suja é diferente do modo como as outras estão sujas.
Brinca! pegando numa pedra que te cabe na mão,
Sabes que te cabe na mão.
Qual é a filosofia que chega a uma certeza maior?
Nenhuma, e nenhuma pode vir brincar nunca à minha porta.

Alberto Caeiro