@ tainah negreiros

sexta-feira, 16 de junho de 2017

entender que a alegria acontece
não é tarefa fácil
senti com alguma clareza enquanto andávamos
pra cima e pra baixo de taxi
uma não distração enorme
contigo nos braços
e a cidade nova lá fora

querido,
agora você é como um gato japonês desaparecido
a partir desse momento pra mim você é como um neko japonês de braço levantado
em um santuário
não importa onde vá, inventei essa imagem próxima
para que possa torcer pelo teu bem
onde quer que esteja

quinta-feira, 15 de junho de 2017

aqueles que dançam
se entendem em um patamar novo
alcançam a profundidade
da alma dos números
O milagre da paixão
vivida por dois

a canção que dançamos
de um jeito louco ontem
ouço hoje sem me mexer
como quem em um esforço tolo
tenta cobrir o traço de um desenho bonito

terça-feira, 13 de junho de 2017

sexta-feira, 9 de junho de 2017


you told me about the gravitational waves
que elas distorcem o espaço tempo
“uma nova era na compreensão do universo”
leio no jornal
um novo momento
bastante pessoal
época das distâncias entre os corpos modificadas

em oito de julho
fomos como dois buracos negros densos
que se encontram
e se misturam
e vibram
a nossa matéria mudou

quinta-feira, 8 de junho de 2017

"please don't tell anyone this but I want to be happy"

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Matthijs

o visitante do meu mundo vem de longe
logo me deixará
mas antes
inventa situações inesquecíveis
em quartos 
meios de rua
portões e beiras de calçada
me questiono se há um esforço presente ou de posteridade
é feito pra durar?
em mim dura
até porque o quarto, as ruas e os portões vão permanecer perto de mim não dele
e a falta que tão bem conheço
vai permanecer minha


you are terrifying
and strange and beautiful
something not everyone knows how to love

sábado, 3 de junho de 2017

Rohmer, nosso aliado

 (Quatro Aventuras de Mirabelle e Reinette, 1987)

Os jovens indecisos e os adultos imaturos de Rohmer são intrigantes, estão intrigados, intrigam. A intriga, em Rohmer, é um pretexto, porque cada narrativa é apenas uma versão da história. As personagens vivem iludidas, mas não é grave, porque o cinema é também uma ilusão e, de algum modo, a vida também é, ou pelo menos o modo como conduzimos as nossas vidas. Eric Rohmer sempre pareceu uma figura paterna, ou pelo menos um irmão mais velho, mesmo em relação aos seus companheiros de geração. Mas foi até ao fim um aliado dos jovens, fascinado com a teatralidade com que os jovens fazem dos factos consumados pretensas estratégias intencionais.
Nos meus Rohmers favoritos, e Rohmer é o meu cineasta favorito, há sempre epifanias fugazes e contraditórias, agridoces: Haydée intempestivamente abandonada no meio de uma estrada, o joelho de Claire quase como se não fosse erótico, o católico que descobre a loura Françoise na missa, Gaspard fingindo que não tem saída com as mulheres, François que descobre o namorado da sua quase namorada, Marion chocada ao perceber que ser adulto é viver com a mentira. Estas personagens não crescem: evoluem. Não aprendem: sujeitam-se. E mesmo se acham que seduzem, talvez seja apenas como em Kierkegaard: "Ele não seduz, deseja, e esse desejo tem um efeito sedutor."
Também isso ensinou Eric Rohmer, nosso aliado.

Pedro Mexia

sexta-feira, 2 de junho de 2017

depois de ler alguns textos de um jornal português hoje escapou de minha boca:

"sinto tua falta imenso"

quarta-feira, 31 de maio de 2017

terça-feira, 16 de maio de 2017


"Refazer por dentro aquilo que os arqueólogos do séc XIX fizeram por fora."

"Em todo caso, eu era demasiado jovem. Existem livros que não devemos ousar escrever antes de termos ultrapassado os quarenta anos. Antes dessa idade, corremos o risco de desconhecer a existência das grandes fronteiras naturais que separam, de pessoa para pessoa, de século para século, a infinita variedade de seres, ou, pelo contrário, de dar exagerada importância às simples divisões administrativas, às formalidades da alfândega, ou às guaritas do corpo de guarda. Foram-me precisos todos esses anos para aprender a calcular exatamente as distâncias entre o imperador e eu."

Anotações de Marguerite Yourcenar sobre o magnífico "Memórias de Adriano"

quinta-feira, 11 de maio de 2017

por que diz isso agora?
é para que eu te ame?
pois sou capaz
se diz duas ou três coisas
como essa
te amo
coisas sobre ir embora da cidade
sobre o mal do trabalho e da família
diz mais uma vez e vai saber
do que sou capaz

terça-feira, 9 de maio de 2017

o homem que me visita se interessa pelos detalhes do meu quarto
e tenho a impressão que havia pensado cuidadosamente para que ele pudesse descobrir
como numa espécie de premonição

sábado, 29 de abril de 2017

Escrevo para uma amiga que quero o bem dele
e que há muito tempo não queria o bem de um amante

segunda-feira, 17 de abril de 2017

era um momento sem medo e sem desejo e ele me deu um beijo na boca
e eu correspondi aquele beijo

sou um homem comum
qualquer um
enganando entre a dor e o prazer
hei de viver e morrer
como um homem comum
mas o meu coração de poeta
projeta-me em tal solidão
que às vezes assisto
a guerras e festas imensas
sei voar e tenho as fibras tensas
e sou um
ninguém é comum
e eu sou ninguém
no meio de tanta gente
de repente vem
mesmo eu no meu automóvel
no trânsito vem

quarta-feira, 5 de abril de 2017

segunda-feira, 3 de abril de 2017

o poema de matilde campilho me faz lembrar de ti
lamento muito sermos tão desencontrados
e você sequer entender metade da poesia que humildemente te ofereço
você é um amante burro
por isso feliz
e hoje quis muito que alguém alegre como você me amasse
esse profundo desejo quase me escapou a boca
e escapou
para uma amiga, depois outra
andei por todo o centro da cidade
quase desmaiei no supermercado
tenho sempre alguma coisa perdida
de antes de você
tem sempre alguma coisa que acontece por causa de antes

domingo, 2 de abril de 2017


"Qual seria a aparência de uma pessoa que tivesse formado a opinião de que seu self era uma ficção conveniente e que, por isso, tentasse inscrever esse eu fictício em sua maneira de conduzir-se, na maneira de encarar os olhos de outrem?"
(T.J Clark em "O Grotesco David com a bochecha inchada: Um ensaio sobre o auto-retrato." No livro Modernismos)

sábado, 1 de abril de 2017

quarta-feira, 29 de março de 2017

Fragmentado (M. Night Shyamalan, 2017)

"Tem mais algum doido varrido aqui?"

Berrava a criança em "A visita" e sua pergunta desvairada ecoa em "Fragmentado". Shyamalan a responde com uma irmandade pela dor, pelo trauma, praticamente elabora uma moral do sofrimento que hermana. Lindíssimo.

domingo, 19 de março de 2017

Há alguma coisa nessa mulher retratada por Manet que eu gostaria de ser e existe alguma coisa no mundo ao redor dela que eu gostaria que fosse meu mundo. Mas é algo em volta que só existe pelo modo que ela se comporta, pelo que ela manifesta e é. Essa mulher está bem. Nos desafia. A certa altura comeu vivo o pintor e ela é mais que uma existência plástica, é uma proposta de existir.

sábado, 18 de março de 2017




declare independence
don't let them do that to you

quinta-feira, 16 de março de 2017

Me aconteceu algum tipo de milagre hoje e posso com clareza atribuir às crianças da lumiar.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Uma cena nos últimos dias de aula na Lumiar ano passado tem me acompanhado. Estávamos todos nos despedindo, escrevendo mensagens em camisetas, cartas de baralho e no meio da confusão virei para André e perguntei se ele iria sentir falta daquilo. Ele me encarou sério e disse: "Vou." Era seu último ano e por muito tempo a ideia de sair da escola parecia um alívio mas algo foi se transformando e alguma coisa o foi enternecendo e resultou naquele "Vou." Senti saudade e fiquei feliz de saber que ele tem aparecido.

domingo, 12 de março de 2017


o homem que não sou dorme
parece não se preocupar
gosto dele porque dorme, porque não se preocupa
e porque não sou
não gosto porque homem

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017


Toni Erdmann é um sonho. Sonho antigo e ao mesmo tempo cotidiano meu. Às vezes assisto tv esperando que a apresentadora do jornal faça algo diferente. Me acontecia na escola sobre os professores, em uma assembléia, ou em qualquer ambiente mais formal. Frequentemente espero dos outros e de mim pequenas rebeldias transformadoras de uma ordem bastante pessoal que persiste. Esse filme realiza esse sonho. Muda tudo.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

severino quer dizer austero.
por precaução,
ele segue o que sugere seu nome.
é de um rigor visível
que tem por trás
a imensa fragilidade
e doçura.

o frágil e o doce são o interior
e a dureza superfície.
o ensinamento que dele sempre brota
conforme ele aprendeu e acredita
é amor manifesto

(para o meu pai que amanhã completa 67 anos)
com sonho e chuva
você sonhava que ia ser melhor depois