@ tainah negreiros

segunda-feira, 17 de abril de 2017

era um momento sem medo e sem desejo e ele me deu um beijo na boca
e eu correspondi aquele beijo

sou um homem comum
qualquer um
enganando entre a dor e o prazer
hei de viver e morrer
como um homem comum
mas o meu coração de poeta
projeta-me em tal solidão
que às vezes assisto
a guerras e festas imensas
sei voar e tenho as fibras tensas
e sou um
ninguém é comum
e eu sou ninguém
no meio de tanta gente
de repente vem
mesmo eu no meu automóvel
no trânsito vem

quarta-feira, 5 de abril de 2017

segunda-feira, 3 de abril de 2017

o poema de matilde campilho me faz lembrar de ti
lamento muito sermos tão desencontrados
e você sequer entender metade da poesia que humildemente te ofereço
você é um amante burro
por isso feliz
e hoje quis muito que alguém alegre como você me amasse
esse profundo desejo quase me escapou a boca
e escapou
para uma amiga, depois outra
andei por todo o centro da cidade
quase desmaiei no supermercado
tenho sempre alguma coisa perdida
de antes de você
tem sempre alguma coisa que acontece por causa de antes

domingo, 2 de abril de 2017


"Qual seria a aparência de uma pessoa que tivesse formado a opinião de que seu self era uma ficção conveniente e que, por isso, tentasse inscrever esse eu fictício em sua maneira de conduzir-se, na maneira de encarar os olhos de outrem?"
(T.J Clark em "O Grotesco David com a bochecha inchada: Um ensaio sobre o auto-retrato." No livro Modernismos)

sábado, 1 de abril de 2017

quarta-feira, 29 de março de 2017

Fragmentado (M. Night Shyamalan, 2017)

"Tem mais algum doido varrido aqui?"

Berrava a criança em "A visita" e sua pergunta desvairada ecoa em "Fragmentado". Shyamalan a responde com uma irmandade pela dor, pelo trauma, praticamente elabora uma moral do sofrimento que hermana. Lindíssimo.

domingo, 19 de março de 2017

Há alguma coisa nessa mulher retratada por Manet que eu gostaria de ser e existe alguma coisa no mundo ao redor dela que eu gostaria que fosse meu mundo. Mas é algo em volta que só existe pelo modo que ela se comporta, pelo que ela manifesta e é. Essa mulher está bem. Nos desafia. A certa altura comeu vivo o pintor e ela é mais que uma existência plástica, é uma proposta de existir.

sábado, 18 de março de 2017




declare independence
don't let them do that to you

quinta-feira, 16 de março de 2017

Me aconteceu algum tipo de milagre hoje e posso com clareza atribuir às crianças da lumiar.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Uma cena nos últimos dias de aula na Lumiar ano passado tem me acompanhado. Estávamos todos nos despedindo, escrevendo mensagens em camisetas, cartas de baralho e no meio da confusão virei para André e perguntei se ele iria sentir falta daquilo. Ele me encarou sério e disse: "Vou." Era seu último ano e por muito tempo a ideia de sair da escola parecia um alívio mas algo foi se transformando e alguma coisa o foi enternecendo e resultou naquele "Vou." Senti saudade e fiquei feliz de saber que ele tem aparecido.

domingo, 12 de março de 2017


o homem que não sou dorme
parece não se preocupar
gosto dele porque dorme, porque não se preocupa
e porque não sou
não gosto porque homem

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017


Toni Erdmann é um sonho. Sonho antigo e ao mesmo tempo cotidiano meu. Às vezes assisto tv esperando que a apresentadora do jornal faça algo diferente. Me acontecia na escola sobre os professores, em uma assembléia, ou em qualquer ambiente mais formal. Frequentemente espero dos outros e de mim pequenas rebeldias transformadoras de uma ordem bastante pessoal que persiste. Esse filme realiza esse sonho. Muda tudo.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

severino quer dizer austero.
por precaução,
ele segue o que sugere seu nome.
é de um rigor visível
que tem por trás
a imensa fragilidade
e doçura.

o frágil e o doce são o interior
e a dureza superfície.
o ensinamento que dele sempre brota
conforme ele aprendeu e acredita
é amor manifesto

(para o meu pai que amanhã completa 67 anos)
com sonho e chuva
você sonhava que ia ser melhor depois

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Vien, Vien!
O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.

Ítalo Calvino - As cidades invisíveis

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Guernica

Um filme doloroso por seu tema mas também porque para vermos plenamente os quadros de Picasso, aqueles mais belos que retratam arlequins, crianças, ciganas, temos que imaginar ou buscar na memória a cor.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Certamente dos aspectos que mais admiro nos escritos de Eisenstein é a relação entre montagem e atuação. Mais especificamente a busca da montagem no trabalho do ator, no rosto, no gesto exagerado ou mínimo, nessas outras possibilidades maravilhosas em que a orientação do olhar pode acontecer. Penso nas atrizes e atores incríveis do meu filme preferido dele, Ivan. Mas claro que também penso na dona da minha cabeça, Sabine Azèma, e em todos os instantes em que ela guiou meu olhar pra onde queria a partir de aparentemente tão pouco. Penso no momento de Ervas Daninhas em que o personagem de André Dussolier lhe pergunta "Então você já me ama?" e ela só olha com um quase sorriso e nega mas não nega sem dizer nada.

dominada pela loucura de querer ler tudo por nenhuma razão exceto pelo espírito.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Aquele homem me chama pra luta como em uma canção do Leonard Cohen. É jovem, acredita em muitas coisas. Ri de tudo. É leve. Aquele homem não sou eu. Eu sou cada vez mais ninguém.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

River e Eu


Senti que hoje eu deveria falar da minha relação com  River Phoenix.

Tudo começou com uma intuição da minha mãe. Quando eu era muito pequena eu ouvia bastante um vinil duplo do Milton Nascimento que meus pais tinham em casa. Naquela época, com uns sete, oito anos, me interessava mais pelo apelo de Canção da América e Paisagem na Janela. Mamãe tinha uma sugestão a me dar sobre o disco: "Ouve essa música linda que ele fez pro o ator River Phoenix, filha". Ela me disse isso mais de uma vez. Me descreveu o River de um modo simples mas que eu nem suspeitaria que ia fixar: "Cabelo e pele queimados de sol". Com a  teimosia de sempre, não ouvi a canção naquela ocasião.
Anos depois, quando eu tinha uns doze anos, assisti "Conta Comigo" na sessão da tarde. A presença do menino de olhos miúdos, com "cabelos e olhos queimados de sol" me comoveu. Lembro claramente do momento em que pensei. "Era desse menino que a mamãe falava, o da canção do Milton" Eu não sabia de nada do filme, não tinha visto os créditos, nada, foi uma intuição. Lembro de um certo assombro ao descobrir que se tratava dele mesmo. Já sendo uma pequena mística, entendi que o que se deu foi que eu tinha mesmo de conhecê-lo, que a vida persiste com as coisas tem que acontecer.
Esses dias li o depoimento do Milton Nascimento sobre quando o viu pela primeira vez em um filme e me lembrou a minha experiência:

"Numa tarde qualquer, estava lá vendo tv no hotel quando começou um filme: The Mosquito Coast. O nome de River Phoenix nos créditos logo chamou minha atenção, mas até então eu nunca tinha ouvido falar dele. Quando acabou o filme, fiquei prestando atenção nos créditos e, para a minha surpresa, o ator que eu mais tinha gostado era justamente River Phoenix. Nesse mesmo dia, também passou outro filme dele na TV: Stand By Me. Fiquei tão impressionado que decidi escrever uma carta pra ele. Foi quando surgiu uma música pronta na minha cabeça. Coloquei o nome: "River Phoenix (Carta a um jovem ator)."

Só fui ouvir a canção nessa ocasião assim que vi Conta Comigo. E então a letra e a recomendação da minha mãe fizeram todo o sentido. A conexão foi imediata com ele e com o que Milton dizia sobre ele. Passei a fazer uma pesquisa pré-internet e reuni uma série de matérias sobre ele. Achei muitas notícias da época de sua morte, 1993, montei um arquivo, li sobre seu vegetarianismo, suas motivações e desde então parei de comer carne. Até que veio Running on Empty, o filme de Sidney Lumet que mudaria a minha vida e seria importantíssimo para o que eu sou até hoje.

Durante algum tempo achei que o filme que Milton "viu tantas vezes" tinha sido esse.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Quase fim de 2016 e estou aqui chorosa ouvindo "Fire and Rain". Todo final de ano costumo assistir "Running on Empty" e nesse não fiz isso. Hoje dei de cara com o tuíter da Martha Plimpton. Ela segue a mulher durona e interessante que sempre foi. Penso no filme, penso no River, penso em 2016. Esse filme sempre dá um jeito de me encontrar nessa época.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

A Cor da Romã



Paradjanov entendeu que o rastro de cor que a romã deixa é o mesmo que o de sangue. E os dois tem a cor de olhos emotivos.

sábado, 24 de dezembro de 2016

10 anos de blog

a ciência da abelha, da aranha e a minha
muita gente desconhece

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

do aluno Raul: Tainah, a gente pode se falar pelo skype no Natal? Quero te fazer uma apresentação especial no piano da música que estou aprendendo. Surpresa.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Tarde nublada em Teresina. Eu na rede. Mamãe e papai no sofá. Faço uma espécie e leitura coletiva da biografia de Clarice. Me sinto bem.
É preciso ser muito feliz para viver numa cidade pequena, pois ela alarga a felicidade como alarga também a infelicidade. De modo que vou morando aqui no Rio. Você sabe, nas cidades grandes todos sabem que em cada apartamento existe uma espécie de solidariedade, pois em cada apartamento mora uma pessoa infeliz.

(Clarice)

domingo, 11 de dezembro de 2016

she's gone
says she can walk now
se você ainda estivesse por aí
eu te segurava
te sacudia pelos joelhos
soprava ar quente nas tuas orelhas

você, que escrevia como um Gato Pantera
o que quer que corra em suas veias
que tipo te sangue verde
te levou à tua sina

se você ainda estivesse por aí
eu rasgava teu medo
deixava ele pendurado fora de você
em longos riachos
fios de pavor

te virava
encarando o vento
dobrava tua espinha no meu joelho
mascava tua nuca
até que você abrisse a boca para esta vida

Sam Shepard, 31/01/80
homesteady valley, california

sábado, 10 de dezembro de 2016

Consolada por Alberto Caeiro que diz que morrer é acordar de outra maneira.

domingo, 4 de dezembro de 2016