@ tainah negreiros

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Matthijs e o oceano cor-de-rosa (acrílica sobre papel 42 x 30 cm)
Matthijs e o oceano cor de rosa (42 x 30 cm acrílica sobre papel)

https://quatroaventuras.tumblr.com/
Ainda sobre vetores, sobre história do Brasil, memória e a lei da gravidade, penso numa relação entre "Temporada" e "Café com Canela", como dois filmes que apontam pra frente, no que diz respeito ao não poder se dar o luxo de serem nostálgicos. A nostalgia no Brasil é um privilégio aristocrata que Glenda, Ary e André não podem ter e não querem. Tem memória, afeto, recuperação, sobrevivência mas a manutenção de qualquer coisa não lhes interessa (digo tudo isso pensando em Aquarius, filme que penso como vetor no sentido oposto, com disfarce de progressismo mas no fundo o verbo que se instaura nele é de manter manter e manter). É preciso ir pra frente, radicalmente modificar e é através da relação com as perdas que esses movimentos se operam, é no trauma, na persistência do chão que o seguir é mobilizado. Os dois filmes terminam em uma mesma direção. Um carro pegando no tranco e um aprender a andar de bicicleta, um reaprender, um reerguer duplicado, esperançoso e vivo. Não é um "pra frente brasil" nacionalista ditatorial, é um seguir em frente apesar da vida e apesar do Brasil.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Temporada, de André Novais Oliveira (2019)




O vetor de Temporada aponta pra frente, pra um futuro de esperança que é um acalento no asfixiante e sombrio Brasil 2019. Concebido por André Novais, em luminosa parceria com a atriz e dramaturga Grace Passô, a história de Juliana é de uma série de impedimentos. A perda da mãe, a não maternidade e o abandono do companheiro. Diante de todas essas negativas, essas derrubadas, de cenas várias que a gravidade age sobre seu corpo e assistimos a dificuldade dela de sair da cama, ainda assim, o filme aponta pra frente. Isso é revolucionário.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019



Uma Canta, A Outra Não (Agnès Varda, 1977)

domingo, 13 de janeiro de 2019

Filha de Ninguém (Hong Sang Soo, 2013)


Haewon encontra sua mãe que em breve viajará para o Canadá para "fazer o que quiser." A mãe é enfática sobre o que deseja da vida. Haewon teme a sua partida mas acredita na necessidade verdadeira de expansão daquela que lhe criou. Essa primeira parte do filme Hong Sang Soo é uma preparação, é um fortalecimento. Deixar que a mãe vá é algo imenso que atravessa esse filme do cineasta sul coreano. Na segunda parte, o diretor Lee, amante da jovem, joga com seu emocional, tenta dirigí-la, controlar a relação e as medidas da exposição da história que vivem mas torna-se somente um bobo patético e covarde distante  da verdade da existência de Haewon. A primeira parte e a segunda parecem independentes mas se ligam profundamente, isso porque o fortalecimento fruto da ambivalência laço e desapego  da relação com a mãe constitui a mulher que Haweon será em suas relações, o tipo de coisa que valoriza e o que tem força para rejeitar. Ela é a filha de ninguém para ser também mãe de ninguém, de homem bebê chorão nenhum. 

domingo, 7 de outubro de 2018

it was lula's birthday
and we were talking about our love
it was lula's birthday
"the the" song playing
and you told me about happiness
and that you wanted to get old
it was lula's birthday and you told me about make me feel loved
it was lula's birthday
and we felt too young
saying mature things

it was the day before brazilian elections
the end of the world could come but
me and you
we found hope
and now I want say loud
and with an opened chest:


I want happiness for us
and for everyone

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

segunda-feira, 17 de setembro de 2018


Aqui faço uma anotação propositalmente anacrônica. A câmera de Claire que, a partir de um olhar detido transforma as coisas e as melhora, está contida no procedimento de todo esse filme anterior, no díptico interno, complexo e lindo que tem o intuito único de dizer que a verdade está no detalhe.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

quando eu segurei teu rosto
radicalmente próximo ao meu
e toquei tua nuca
sentindo teus cabelos extremamente curtos
a textura deles escapando da tua cabeça linda
eu pretendia alguma coisa.
quando olhei de perto demais teus olhos castanhos
profundos como são os olhos castanhos de quem se ama
eu queria era inventar uma lembrança nova
material
a lembrança impossível, pois material
a alegria imensa pois matéria e espírito.
o beijo é a melhor coisa que existe sobre a terra
movimenta a órbita dos planetas
eles  que se alinharam de tal maneira quando nascemos
para que um dia certas pessoas pudessem vir
a dar um beijo.
inventamos as bocas intermináveis
a língua em um mundo de frescor
de coisa nova
de um começo do amor que poderia ser provisório
e continua
com alegria

terça-feira, 29 de maio de 2018

A Câmera de Claire (Hong Sang Soo, 2017)

A operação bastante consciente de Hong Sang Soo em " A Câmera de Claire" é orquestrada, mais uma vez, por presenças destoantes de uma ordem (masculina) de não franqueza com as outras pessoas e consigo, ou de uma verdade masculina que escapa e revela um interior tirânico e desprezível. Em "Certo Agora, Errado Antes", o díptico interno de que o filme é composto existe para sentirmo os peso e a beleza que a verdade carrega, e o modo como modifica uma história. Em "O Dia Depois", é preciso para Hong Sang Soo eclipsar todo e qualquer personagem, e faz isso com as personagens femininas de modo grosseiro, para ressaltar a beleza da verdade da personagem de Kim Min Hee. No imenso "Na Praia à Noite Sozinha", é o confronto pela imensa verdade da existência e das palavras de Kim Min Hee, lançadas contra o precário masculino do diretor e de todos os homens que vê pela frente, que alimenta essa obra e a ilumina. Só as mulheres prestam naquele universo. Todos esses filmes compõe um projeto de estudo da miséria masculina através de personagens femininas que instalam uma ordem fascinante e transformadora de um modo mesquinho e cretino de viver. "A Câmera de Claire" traz um elemento desestabilizador a mais: Isabelle Huppert e sua câmera que muda as coisas. Transformou, modificou. A mesa fora do bar que era uma lembrança triste de uma demissão virou a mesa que testemunha uma conversa sobre a vida ter jeito. Essa transformação é um feito da personagem e desse cinema.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

terça-feira, 1 de maio de 2018

mapa mundi

a proposta
amorosa
que te faço
é de um mapa novo
colorido
sua forma é de saquinhos de açúcar
bilhetes de museu
e de beijos dados lá fora
na calçada

uma geologia nova através das esculturas
um turismo errante das ruas que se abrem
pelo amor e descoberta

lugares pequenos
a maior cidade da américa do sul
(rio sozinha de te imaginar esperando o metrô da linha vermelha pra vir me ver)
uma outra cidade banhada por um rio
vivo
um hemisfério norte de saudade
que não conheço
cartografia pessoal
também pra onde se viaja
com o outro só em pensamento
uma geografia ainda por nascer
mapa mundi do desejo de ficar contigo
por toda parte

o mapa tem a forma do movimento
alegre seu rolando até o meu lado da cama

domingo, 22 de abril de 2018

domingo, 15 de abril de 2018

Sergio me diz que Agnès Varda é cerebral, que ela enviou aquela boneca dela de papelão e foi lá participar da festa do oscar sabendo que ia perder porque fazer isso é ganhar de outra maneira.
No meio da rua, na marquês de itu, eu e ele passamos a nos questionar sobre quantas vezes não teríamos feito o mesmo, reinventado a vida para ganhar de outro jeito, não seria isso o que estamos todos fazendo a colorir os arredores de onde Lula está? Não seria isso ganhar de outra maneira?

terça-feira, 13 de março de 2018

segunda-feira, 12 de março de 2018

domingo, 21 de janeiro de 2018

sonhei demais
A rosa
não buscava ciência nem sombra:
confim de carne e sonho,
buscava outra coisa.
A rosa
não buscava a rosa:
imóvel pelo céu
buscava outra coisa

(Federico García Lorca)

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

logo será fevereiro

a saudade é norte
como disse o artista brasileiro
a distância nunca é menos de mil
desde que deixei a casa em Timon
desde que levei o homem ao aeroporto de Ezeiza
é sempre preciso um avião
vôo do coração
quando avisto o rio estou mais perto
quando as pedras cercam o ônibus que chega ao amanhecer é que estou mais perto ainda
o frio que congelou o lago eu veria se chegasse agora pra ele
na sua cidade pequena de computadores, imigrantes alemães e bem-estar social.

em 2018 beijamos telas de celular e computadores
fazemos video-chamadas
e ainda choramos em travesseiros brancos
o difícil
a distância que se reinventa de hora em hora
a geografia das coisas
dos amores
que ocupam o peito e os pensamentos todos os dias

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018





Aqui deitada nesse primeiro dia do ano me vem na cabeça Aprile, de Nanni Moretti, filme da minha formação. Ainda na escola, aos 17, comprei o dvd com dinheiro de aulas particulares e assistia toda semana. Aprendi ali a ocupar mais a vida com o que faz nosso coração bater com alegria, sem perder de vista a luta. Deve ser por isso que penso nesse filme hoje, filme de véspera de nascimento de filho, de eleição e de véspera de eleição, filme vermelho. Este filme é minha bandeira carinhosa nesse primeiro dia do ano.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Tennessee Williams, 1945

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

faz-me lembrar
um filme do Rohmer
ou o toldo vermelho
do Joaquim Manoel
Quando penso em ti
eu esqueço o lixo
que de manhã faz barulho
à minha porta
Pareces-te com o tempo
das amendoeiras
Tens tudo a ver com
a escadaria semi-invisível
que o mágico escavou
no rochedo atlântico
Sim tu pareces o Verão
(...)
Fazes lembrar a alegria
de um risco na parede
desenhado a carvão
pela criança da manhã
É no verde dos teus olhos
que eu treino a disciplina
de uma explosão sossegada
que se vai revelando devagar
ao ritmo das estações concretas
E já agora é também no amarelo
dos teus olhos que eu descanso
da guerrilha do mundo moderno
Aqueles que nos fez esquecer
a gargalhada de David
quando derrotou o gigante
(mas olha há sempre um riso
ecoando lento na caverna)
Estamos aqui para vencer a dor
E teu rosto diário faz lembrar
a vitória do tempo sobre o tempo
Porque afinal de contas tu
te parecer muito com a promessa
de uma fé vagarosa & livre
Pareces a coragem, pareces a paz
Pareces mesmo a madrugada egípcia
sobre a qual voa um passarinho.

(Matilde Campilho)

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Há dois dias sonho com as crianças de uma determinada turma. E elas ficariam chateadas se me vissem chamando-as de crianças no alto dos seus 13, 14 anos. O pianista, a feminista, o mágico cineasta, o mago dos efeitos especiais, a artesã, o jogador de basquete que ama Star Wars (o que terá achado ele do último filme?), o ator que também canta hardcore, o apaixonado por Chaves, o que sempre ri e ama Stranger Things, aquele que canta e desvenda mistérios de computadores, o grafiteiro, o amante de rap nacional que imita um homem velho com sotaque nordestino como ninguém, o aficcionado por tecnologia. Enquanto na minha cabeça listava cada uma dessas lembranças imediatas de cada uma das crianças, pensei na canção de Charles Aznavour. Les comedièns que diz "Viens voir les comèdiens, les musiciens, vien!". Vem ver todo essas pessoas que fazem morada no meu coração.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Johnny Guitar



Em fuga, Johnny sacode a ponta do vestido de Vienna para apagar o fogo
 é o que me chama a atenção Matthijs
depois de eu notar
que Johnny também a ajuda a ajustar um cinto
quando os dois tem que trocar as antigas roupas por novas e secas.
Vienna não precisava
Poderia salvar-se sozinha, tirar o fogo do vestido branco com as próprias mãos
ajustar o cinto reiterando a firmeza que tem
Nicholas Ray decide focar nesse detalhe por uma sabedoria de cinema
revelação de uma intimidade qualquer desses amantes
cheios de um passado que mal conhecemos
mas que fazemos ideia e nos fascina
por tudo que contem gestos como esses.
Johnny Guitar dá título ao filme e está lá para servir
Doar-se por Vienna, é o que pode fazer diante da imensidão daquela presença
Como se fosse tudo que pudesse dar para, quem sabe,
ganhar o título do filme com seu nome
Título sonoro, belo
como sua música
Ah! E sua música ele nos dá. Ela pede
Nela também o passado misterioso de amor está
Toca, Joãozinho!

sábado, 2 de dezembro de 2017


Há quinze dias Pj Harvey esteve na cidade. Ingresso caro para ver alguém que me acompanha há tantos anos em uma mudança de paleta de cores e de vigor, das duas. Entrou ainda com sol, sóbria, solene,  entendi que mais do que a música,  queria sua presença, entender alguma coisa dela ao vivo, de bastante perto. Senti e entendi tudo. A sua solenidade, o seu não se mover conforme a música mas conforme uma lentidão que ela própria estabeleceu antes, para o show e para si. Um rigor interessantíssimo e poderoso. Não sei nada da vida pessoal dela exceto que há muito anos deixou Nick Cave (arrasado) e hoje sua companhia em fotos é quase que somente do seu saxofone. Me parece uma daquelas mulheres sem homens (no fundo não serão todas?), pelo menos em sua vida pública mesmo que cercada deles em sua banda. Mulher fascinante. Não consegui esquecê-la desde o show, algo na sobriedade e no solene. Também na lentidão. A presença que quis eu tive. E a música também.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

ainda não conseguimos nos decidir se o mundo é grande
ou pequeno
digo para mim mesma com as mãos abertas cobrindo o rosto
"nada é grave, nada é grave"
mas como às vezes são difíceis esses milhares de quilometros
entre a rua dona veridiana, 192
e a barrel yards blvr, 29
mas no fundo o mundo é pequeno
quando o vento,a água e a crosta terrestre se movem
pela força dos nossos desejos.
um avião suspenso no ar
uma cidade portuária banhada por água misturada a do atlântico
o mundo é pequeno porque amo você
o mundo é grande e vasto também por isso

segunda-feira, 27 de novembro de 2017


decidimos ver filmes juntos como uma trapaça contra a distância
tenho vontade de chorar com essa bobagem imensa
que revela um desejo comum
um esforço à toa qualquer
que tem a ver com um outro gesto
o de beijar a tela
quando o que aparece é foto do outro
eu beijo
porque sou do tipo
que dá bandeira
e distribui gestos de amor


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

bjork utopia

all of my mouth was kissing him
now, into the air, I am missing him
is this excess texting a blessing?

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

com a cabeça encostada na janela do ônibus
(essa imagem tão comum, contemporânea)
penso no nascimento do amor

foi assim quando colocou a cabeça no meu peito
duas, três, quatro vezes
gesto de amor sob o sol
ternura sobre a colcha branca de cama
o teu nariz sensível
ao cheiro da cidade
é o que eu amo

em uma tarde de novembro em buenos aires
aprendemos a ser como um Rodin
ou uma  pedra dessas que tem coração