@ tainah negreiros

domingo, 29 de junho de 2014

Ozu e o "estar aí das coisas"




"A presença das coisas nesses famosos "planos vazios", uma bicicleta de criança num corredor, uma lâmpada, um pedaços de montanha, uma plataforma de estação, assim como a ressonância quase metafísica dessa presença são o efeito da precedência arbritária de uma enunciação vazia que nos causa o sentimento da arterioridade absoluta do estar-aí-das coisas, de sua presença física, em relação à existência do drama e dos personagens."

Texto "O homem se levanta", de Alain Bergala

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Uma canta, a outra não

Há um dado inicial sobre "Uma canta, a outra não" que torna cada uma das imagens desse filme de Agnès Varda ainda mais enternecedoras: o filme é dedicado à Rosalie, sua filha, que Varda teve sozinha, após ter sido abandonada pelo pai ainda na gravidez. Essa dedicatória inicial paira sobre todo o filme que, à primeira vista, pode ser visto como algo didático, ou até mesmo romântico, sobre o feminismo em formação. É sim um filme sobre isso mas que tem sua beleza e relevância no fato de partir das mulheres, de suas experiências de dor, solidão e de comunidade. Interessa a Varda o percurso de Pauline e Suzanne. As duas que se conhessem ainda muito jovens, Pauline ainda na escola e Suzanne já vivendo um romance com um homem casado, com dois filhos dele e prestes a fazer o aborto do terceiro. É quando Pauline se aproxima para ajudá-la, momento que coincide com seu rompimento com a família e saída de casa. Suzanne é abandonada pelo marido, amparada por Pauline e as duas só se reencontrarão dez anos depois, luminosas, envolvidas, engajadas e muito muito vivas. Varda as acompanha. Pauline, ou Pomme, em seu percurso errante, apaixonado, entregue, solidário e criativo. Pomme se lança no mundo, se apaixona, narra o que vivencia, muda de idéia, muda de lugar, experimenta a maternidade, observa o que deseja e o que rejeita na vida. Pomme canta. Suzanne não. Diante de Suzanne havia somente aridez mas Varda filma sua força, sua resistência, a reflexão sobre a solidão, a vivência dos filhos, o trabalho, cada pequena e grande conquista. Mas há algo para além das descobertas, da formação, da militância, do crescimento: a experiência em comunidade. Suzanne e Pomme vivem, sobrevivem, são cheias de graça e o que constatam, o que apreendem, partilham. Todos esses pequenos dados cotidianos que as engrandecem são levados para os grupos de mulheres de que fazem parte, em que foram acolhidas e que ajudaram a construir. Partilham suas vivências também muito intimamente uma com outra entre cartas longas e breves cartões postais. Em um deles Pomme escreve "Estou feliz e não estou". Lemos e vemos o quanto ela e amiga sentem isso, diversas vezes. Não só nesse filme de Varda há essa possibilidade de coexistência entre estar e não estar feliz. Esse é um de seus temas e mostrar isso como Varda mostra nesse filme não é pouca coisa. É muito. Que bela carta! Que belo filme para Rosalie!