@ tainah negreiros

segunda-feira, 25 de abril de 2011

pode o homem enriquecer a natureza com sua incompletude?
disse manoel
lembrei de tarkovski
rohmer
arthur pinta no canto da sala
lembrei da espera da minha mãe e do meu pai
pra que a roseira na varanda florescesse
deve ser isso

quinta-feira, 14 de abril de 2011

mari me deu de presente este fim de tarde que eu já conhecia
ouvindo zii e zie
(e a gente cantando junto na praia, ainda isso)
estou tomada por essa imensidão
por Sophia, por Tito
por duas mães
em alguma hora desconfiei que os carros também me dariam bom dia e ririam
porque todos me receberam tão bem...
cada uma dessas pessoas
na casa da minha irmã
na celebração da mari
a muzanga do camdomblé, o rezar de preto é alegre, lindo
do rio que eu não conhecia nem por foto, nem por canção.
E as longas conversas no ônibus com a cidade sobre nós devem ficar, sempre.

sábado, 12 de março de 2011

paisagens fluviais


três canções de tetê espíndola
são o bastante

uma manhã
eu criança, em timon, andando com meu pai
achando que a cidade era grande
depois descobri que aquele lugar onde tinha a árvore
que achava que era longe
era bem pertinho de casa

a dor do tempo, a ferroada do tempo
uma beira de rio

lembrei também de um sete de setembro
na jaime rios
me confundo sobre quais amigos estavam comigo, mas sei bem qual era o dia
uma sensação quase exata
a rua quatro
outra rua, aninha deitada na calçada
e um outro dia também, um zé pereira

a dor do tempo, a ferroada do tempo

quinta-feira, 10 de março de 2011

pequenas histórias de curitiba

uma professora dedicada
um aluno dedicado
ele trabalha em um lava carros depois da escola
lê clarice na aula
fuma maconha depois
e sabe tudo do que eu dei sobre guerra fria, tudo mesmo
ela recém deixada pelo marido idiota
prepara e pensa as aulas muitas muitas vezes antes
é muito justa
percebe em muriel uma delicadeza na leitura dos textos
é um menino incrível mesmo

uma emissora de tv quer um bom exemplo na escola pública
ela lembra dele
chama, avisa sua família
a emissora não vem
e eu ouvi tudo e senti muita muita raiva
eles assim, magoados por desinteresse
o que é mais distante e oposto do que eles despertam e merecem

--.--

eu e rafa na parada
reclamamos do preço da tarifa
alguns alunos entram pela saída, sem pagar
e ela
se eu não fosse professora
faria que nem eles

--.--

o aluno me pergunta se vale a pena se professora
eu digo que vale
se conseguir viver com pouco
com um casaco só, em uma casa de um cômodo só
ou se for sem filhos como eu
e poder escolher dar poucas aulas
ele diz que pensou nisso
mas que o pai queria que fosse engenheiro

--.--

último dia de aula do semestre
meu último dia no terceiro b
aulas liberadas
vou chegando num frio de lascar
com o visual boneco de neve de julho em curitiba
encontro valdeci na porta
ele deseja que dê tudo certo na minha vida

domingo, 27 de fevereiro de 2011



naquele pedaço de rua
a casa quase humana
meu navio para sempre fazendo água

em dias de calor úmido
a casa me atravessa
como um pássaro quebrado

(roseana murray)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

ainda bem que eu tinha visto aquele rohmer das duas meninas
quando se olha uma pintura não se diz nada
só silêncio
dizia mirabelle
tirei a tarde pra ver as pinturas do arthur
outro dia eu tinha lhe pedido pra colocar as que vi na parede
como mirabelle, ele me disse
"você lê textos, ou poemas, o dia inteiro?"
é, não faz sentido vê-las o dia inteiro
não aguentaria
fiquei em silêncio, mas concordei
hoje foi grande, entendi o filme do rohmer inteiro
o entendi um pouco mais
uma lição de pintura
e de lidar

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

i have a love. i have a love for this world, a kind of love that will break my heart


Jens days, eu diria. Este deslocamento do íntimo ao coletivo de que ele fala muito me interessa. É como um maravilhoso movimento de ir e vir entre nós mesmos e os outros, entre nós mesmos e o mundo. Quando ouvimos de um romântico como ele, sobre essa necessidade de se deslocar, de entender os motivos do mundo é comovente. É como ele canta quando vê a menina na passeata anti-guerra, quando canta de uma"doce sensação de amor" em um dia como aquele. Salve Jens!

there's got to be someone here tonight
who can explain to me
how shadows can also shed light

how they can outshadow
what happened between us and outline
The burnt ground beneath us

i need to be explained to
over and over

how a broken heart is not the end of the world
because the end of the world is bigger than love

i was in Washington D.C. for the election
and when they announced the results
i left the procession
content in the world's direction

tried to call you for an explanation
of the distance to the star constellations
or any explanation of

how a broken heart is not the end of the world
because the end of the world is bigger than love

and it's bigger than an iceberg
than the plume of a geyser
and it's bigger than the spider
floating in your cider
and it's bigger than the stock market
than the loose change in your pocket
and the Flatbush Avenue Target
and their pharmacy department
and it's bigger than our problems
and I our inability to solve them
from Coney Island to Harlem
to the end of the world and back again

a broken heart is not the end of the world
the end of the world is bigger than love
às vezes eu me antecipo e arthur me desacelera
me recomenda um filme em que tudo pode dar certo
estas conversas de logo antes de dormir tem me salvado como quando nos conhecemos
a descoberta do mundo
ontem foi o poeta argentino Joaquín O. Gianuzzi


Minha filha se veste e sai


O perfume noturno instala seu corpo
em um segundo aperfeiçoamento do natural.
Pela graça de sua vida
a noite começa e o quarto iluminado
é uma palpitação de jovem felino.
Agora põe o vestido
com uma fé que não posso imaginar
e um sussurro de seda a percorre até os pés.
Então gira
sobre o eixo do espelho, submetida
à contemplação de um presente absoluto.
Uma doce desordem se imobiliza em torno
até que um chacoalhar de pulseiras sendo fechadas
anuncia que todas minhas opções estão resolvidas.
Ela sai do quarto, ingressa
em uma véspera de música incessante
e tudo o que não sou a acompanha.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

a moça que comprou nossa casa liga e meu pai:
"como está a goiabeira?"
"e a acerola dando muito?"
" e a planta que cheira? (o jasmim)

o telefone toca à tarde
é mamãe que liga
"comeu fruta?"
"não deixa de comer fruta?"

eu no quarto fugindo da claridade
calorão
ouço meu pai com fones no computador
assobiando uma música boa

como é que se salva isso?
é que eu preciso...

domingo, 2 de janeiro de 2011

domingo, 26 de dezembro de 2010

dos amô da cantiguêra


minha vó, seu corpinho miúdo
tanta tanta saudade
ela sente
já sinto dela

chão laranja, batido, poeira
a música da igreja de manhãzinha
que é toda toda minha infância
nas férias
as vozes, o dizer que sozinho já é suficiente pra me fazer chorar
e as flores esperando virar umbu
virar caju

em são raimundo é assim
tão pouca, tão pouca chuva basta
pra deixar tudo verde

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

tainah says: (3:24:52 PM)
a di me disse hoje
tainah says: (3:24:56 PM)
pintaram a casa de vermelho
tainah says: (3:25:05 PM)
tiraram as grades da varanda e puseram um vidro
tainah says: (3:25:12 PM)
nem sei se queria ouvir
tainah says: (3:25:15 PM)
mas fui eu que perguntei
Arthur says: (3:25:21 PM)
aff que bizarro
tainah says: (3:25:39 PM)
a di disse que ficou linda a casa

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010


minha paisagem é madrugada sem você

domingo, 28 de novembro de 2010

meu pai me diz
"se proteja"
"não deixa que todas as tristezas da cidade machuquem você"
"se proteja"
"nem sempre podemos fazer alguma coisa"
ele me conhece
e sabe que eu não esqueço de nada
quer meu bem
quer mais que só meu bem, quer o bem dos outros
e sabe da imensidão e tristeza do mundo
(sabe da alegria)

mas é que estamos em são paulo
se proteger não existe, pai

sábado, 27 de novembro de 2010


tenho sofrido daquilo que marker chama de
dor do tempo
a ferroada do tempo
uma vista do rio
e uma sensação sentada no chão da casa da minha vó
à tarde

sábado, 13 de novembro de 2010

Ele me escreveu dizendo que “sobre as imagens de Guiné Bissau deveria se colocar uma musica de Cabo Verde, como contribuição à unidade sonhada por Amílcar Cabral.
Por que um pais tão pobre e tao pequeno interessaria ao resto do mundo? Eles fizeram o que foi possível, eles se libertaram, expulsaram os portugueses, traumatizaram o exército português a ponto de esse iniciar o movimento que derrubou a ditadura e fazer crer em uma nova revolução européia.
Quem se lembra de tudo isso? A História joga pela janela suas garrafas vazias”



Oh nha guente
Nha cancera ka tem medida
Oh nha guente
Oh qu'afronta qu'm passa
Trinta ano di Sao Tomé
Leva'm familia
Dixa'm mi sô
Cu nha tristeza e nha sodade
Oh oi oi nhos leva'm ca nhôs dixa'm
Cabo verde é qu'é nha terra
'M qu'rê volta ma'm ca podê
C'atcha ninguem pa da'me di mon

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

sonho sujo #1


hoje sonhei com um gato preto e branco
que cuidava de mim
enquanto eu lamentava fazer as malas
para ir embora de uma velha casa
não era meu gato, não era minha casa
mas sabia quem eram
acordei às sete como se algo tivesse se partido

sonhei que ia à uma biblioteca com mais livros e revistas sobre Chris Marker
do que realmente existem
e o bibliotecário loiro me dizia que "some cities" era muito bom
nunca li

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

estou parte aqui
e outra parte, boa parte
está em timon
torcendo pra que chova

estou vivendo vários dias de chuva
da memória
dias próximos ao natal
lendo revista antiga
sobre river phoenix

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

sábado, 2 de outubro de 2010



quando se acelera uma Morna
dança-se uma Coladera
dos confins da resistência camponesa na Ilha de Santiago em Cabo Verde
nasce o funáná que insiste
para que deixem
os rapaz vivir de si manera
as moça vivir de si manera
e tudo soa como uma voz de longe
um arrepio que sobe pela espinha
que faz sentir saudade
e faz querer voltar a ilha que não fui
como um desejo meu de mergulhar no vulcão
vou mergulhar no vulcão, meu amor

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

onde jaz o teu sorriso?


Danièle Huillet e Jean Marie Straub
duas presenças sob a penumbra
Pedro Costa desaparece
para lhes dar lugar
lugar a fala intensa de Straub
e ao silêncio concentrado de Danièle
ao tempo que conecta
aquelas palavras, aquela persistência do trabalho
aquele pedido de concentração
a sua busca
e sim, como reinvindicou Straub de que deve haver "algo que queima em algum lugar do plano"
há algo que queima
há algo que queima na insistência da fala de Straub
na insistência pelo trabalho de Danièle
e no equilibrio disso no ofício dos dois artistas
há algo que queima na imagem de Straub sozinho ao final
que acompanha
junto com a pergunta que da título ao filme
enquanto nos afastamos da sala de cinema.

domingo, 5 de setembro de 2010

Juventude em Marcha



um homem velho, Ventura
e uma canção que diz de uma juventude em marcha
um passado heróico de luta
a independência de cabo verde
um passado que também se confunde com uma carta de amor
que se repete como uma lembrança.

este filme se passaria aparentemente em dois momentos, a vida na periferia de lisboa destinada aos imigrantes, as Fontaínhas, e a mudança para os conjuntos habitacionais assépticos de paredes brancas, muito brancas.
Mas o filme trata de imprimir outros signos
de outros tempos, de outros pesos de viver aquele passado, presente e o futuro.
Há uma carta de amor, Ventura e seus muitos filhos fruto de uma experiência em comunidade, e há simplesmente uma confusão que não trata de nos explicar muito como Vanda, Lento, Nhurro passaram a ser seus filhos, mas entendemos.
Ventura está doente hoje, e Pedro Costa está lá com ele, por isso não pôde vir ao Brasil na mostra. Não parece, mas isso diz muito, muito sobre "Juventude em Marcha".

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

algumas coisas andam me pegando como quando eu tinha 10 anos.

sábado, 7 de agosto de 2010

but i know she was born to do everything wrong with all of that


pai
não estamos de lados diferentes
o nosso lado é o mesmo
afinal, foi você quem me ensinou que o lado em que devemos estar
é o de quem mais precisa da nossa força
e este lado que assumo desde muito pequena
mesmo que por vezes tenha sido dolorido
e desalentador
mas te ouço como se fosse naquela pequeninice
e sigo este caminho junto com você
deste lado do rio dos que não são dados os meios, nem a voz, sequer a chance.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

rise and monty kissing - nan goldin (1988)

sábado, 31 de julho de 2010

A tarde fui a casa de Ana Maria lhe dar um presente. E ela displicentemente me faz entender porque gosto tanto de estar aqui, por sentar numa tarde desprentensiosa e ouvir as coisas mais bonitas sobre fragilidade, sobre feminismo, sobre força, sobre os lugares naturalizados e os construídos, sobre amor, sobre muita coisa. Ela me conta de seu país, do frio de Bogotá e do calor de Letícia, falamos também dessas distâncias.
A noite encontro com Lidi, sentamos no café e quando notamos estamos já com as mãos na testa pensando que o que queremos e reinvidicamos não tem a ver só conosco, não tem a ver com O QUE EU VOU GANHAR COM ISSO. Isso se parece muito com o que penso sobre essa eleições, sobre um interesse muito maior por quem defende o Lula e o que ele representa do que o próprio Lula, sobre o que se desprega dele e se traveste nos outros em possibilidade, em chance, às vezes em decepção, mas em chance.
Voltei com Patrícia de carro. Ela me diz que pensou em não tomar partido mas que é preciso, não por ela, não porque ela sozinha VÁ GANHAR ALGO COM ISSO, sobre todos os outros rostos deconhecidos que sabemos - quem vai ser por eles? há alguém?

quinta-feira, 22 de julho de 2010

why is this happening to you, you not a child?


esses cds do belle físicos na minha mão
que pouco tem a ver com o que se compra
mas muito com o que se lembra
como um monte de dias deitadas no chão ouvindo, com encarte na mão em 2006
em tardes quentes de 2007 que não eram pra ter nada a ver com a neve de glasgow.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

no coração do brasil um punhado de terra

no caminho pra são raimundo
quanto maior a distância da fumaça,
mais estrelas no céu
e a gente sabe que o ônibus vai seguindo bem direitinho
as orientações do cruzeiro do sul.

terça-feira, 13 de julho de 2010

As férias estão assim: com vozes de Cabo Verde e Guiné Bissau pelo apartamento.
Eu e meu pai refletimos nestas tardes sobre eles, que inventaram a alegria.
E eu penso com tristeza - como submeter os inventores a tanta dor, como tentar tirar isso deles com tanto empenho?
Ou como diz a carta do viajante:

"Ele me falou da corrida para embarcar na Ilha do Fogo em Cabo Verde. Há quanto eles estão ali à espera do barco? Pacientes como pedras, mas prontos para avançar. É um povo de errantes, de navegantes, de viajantes pelo mundo, formado de mestiçagem, nestes rochedos entre pausas dos portugueses entre colônias. Povo do nada, povo do vazio, povo vertical."

Talvez isso dê conta das tantas vezes em que Cesária canta a palavra "sodade". Como se a gente desse conta disso, a palavra querendo dar conta do que se sente.. Como lembrar da sede? Como contar da saudade?
Quando terminar meu trabalho sobre o Marker vou ter que agradecer também a ela. Como faz mais sentido escrever sobre "Sans Soleil" ouvindo Nha Cancera Ka tem Medida, ouvindo Petit Pays.. E a meu pai, por ter me mostrado Cesária há muito tempo, e por dizer nessas tardes como num suspiro tão franco que "tem que ir a Cabo Verde".

sábado, 10 de julho de 2010

lá na Casa Dom Barreto
onde as dimensões de viver pra mim se alargam
e as de sentir saudade também

quinta-feira, 8 de julho de 2010

domingo, 4 de julho de 2010

será que algum rapaz de uns 20 anos vai telefonar?


Esse "Abrazos rotos" de Almodóvar é dificílimo de definir
Gosto demais dele, pensando algumas horas depois de visto
fiquei com vontade de chorar muito sinceramente já quando chegava perto de acabar
a refeitura de "mulheres à beira de um ataque de nervos"
só que triste, que não vibra
como aquilo me impressionou!
como "mulheres" é importante pra mim!
o arrepio de Candela, de novo, seguido de "Essa parte é a melhor" do diretor.
Uma beleza!

O filme tem uma melancolia não premeditada que é quase assustadora
se não fosse tão tão de verdade
maior que o colorido, que persiste e chama tanto a atenção
mas essas sensações, a praia, os abraços, tudo, chama mais.