@ tainah negreiros

segunda-feira, 21 de julho de 2008


"A primeira imagem de que ele me falou foi a de três crianças em uma estrada na Islândia, em 1965. Ele disse que para ele era a imagem da felicidade. Ele tentara várias vezes associá-la a outras imagens mas não conseguira. Ele me escreveu: 'Preciso colocá-la sozinha no início de um filme, com uma tarja preta. Se não virem a felicidade na imagem, ao menos verão o preto.' "


A primeira imagem de que ele me falou foi a de três crianças em uma estrada na Islândia
imagem que também é dele
agora nossa

depois entre albúns em que eu tentava compreender sua história
refazendo seus passos ainda pequeno
quase como uma tentativa boba
de entender nosso encontro
anos depois

é uma forma de esperança
eu sei
como se naquelas pequenas linhas de todo dia
a gente também se encontrasse
dessas coisas miúdas todas que fazem da vida
encontro

e há essa imagem que salva como a de Marker
agora minha
também nossa
uma imagem de felicidade
verde

sábado, 7 de junho de 2008


quando amanhece
ele é tão indefeso
tanto
que saio do meu lugar e fico um pouco mãe

quando amanhece
e ele de olhos miúdos ainda dorme
sou pietá

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Esses dias descubro o quanto é encantador escrever pra alcançar os pequenos, essa tentativa encantadora de escrever algo bonito da forma mais simples. Já tinha percebido isso com Clarice, com Manoel... conheci esses dias Roseana Murray, uma mulher cheia de encantos com as palavras e de bonitos nomes pra livros, bonitos nomes pra livros bonitos. Hoje depois do almoço fiquei lendo alguns com Arthur e colorindo a tarde. É das coisas que mais gosto de fazer.


Felicidade

Pinto as unhas de azul,
as mãos, a voz
o coração
e na mala aberta arrumo ventos,
pensamentos, e o mapa azul da felicidade
feito com as pequenas linhas de todo dia:
parto montada na aurora
como num cavalo respingado de luz.

r. m

segunda-feira, 26 de maio de 2008

segunda-feira, 12 de maio de 2008


E essa noite Chris Marker nos encontra com seu Sans Soleil.

uma imagem de felicidade
verde
uma carta ao mundo
enquanto a gente acompanha a caminhada
quietos, encolhidos no sofá
se tivessem me dito da sede
se lembrar fosse o contrário de esquecer
mas nesse reescrever
nesse debruçar
uma compreensão

terça-feira, 6 de maio de 2008

domingo, 20 de abril de 2008


"Mais alguns segundos e a negra vai cantar. Isso parece inevitável, tão forte é a necessidade dessa música: nada pode interrompê-la, nada que venha desse tempo no qual o mundo despencou; ela cessará por si mesma no momento exato. Se amo essa bela voz é sobretudo por isso: não é nem por seu volume, nem por sua tristeza; é porque ela é o acontecimento que tantas notas prepararam, de tão longe, morrendo para que ela possa nascer



Sartre ainda sem saber
que falava da Nico
da Nina
sobre quando cantar
é acontecer
é acontecer no peito da gente

terça-feira, 8 de abril de 2008

às vezes me sinto como da primeira vez
quando me perguntava
como passei tanto tempo sem conversar com alguém como você?
o que eu conversava antes de você?
como me mexia?
você que me ouve mesmo a distância
desse sentir demais do último mês
um sentir demais, demais
pra quem eu diria o quanto acho minha avó linda
e minha mãe linda por parecer com minha vó
e ser toda outra
como eu saberia que sonharia ser tão boa companheira
ser tão boa mãe
como elas
senão contigo
não, não sei bem como era pensar o futuro sem você
agora que sonho a vida
contigo

sexta-feira, 4 de abril de 2008

depois da chuva

não, não queria sair
estou exposta
a vida é imensa
e eu estou em carne viva

quarta-feira, 2 de abril de 2008

mais chuva
e hoje tenho pele em flor

domingo, 30 de março de 2008

domingo, 23 de março de 2008

e nessas noites sinto tanta saudade do meu avô, do meu tio
e quando vem forte, menos serena que de costume
é que torço por uma quebra de dimensão
que o carinho, que o zelo
que as preces alcancem

sábado, 22 de março de 2008

há um ano a vida me preparava pra te encontrar
enquanto eu ouvia nico cantá-la
ainda sem saber
que ela também cantava a sua




isso me faz acreditar em tanta mágica
algumas canções soam
como andar descalço na terra
soam como coragem

sexta-feira, 21 de março de 2008

sei de ser tomada por uma certa selvageria
como se eu fosse só a saudade que sinto
mas depois de inquieta
como manhã que desanoitece
o corpo guarda



é de salvar pra encontro

quarta-feira, 19 de março de 2008

e hoje estou com uma vontade possuída de conseguir tocar bem
tocar bem bonita e correta no violão uma canção que gosto muito

terça-feira, 18 de março de 2008

marni horwitz


sobre viver também em sonho
pra poder tocar

segunda-feira, 17 de março de 2008

então conhecer é ser invadido?





é que às vezes é como se eu fosse parir
e os passos, o toque, o olhar
isso que diz sobre zelo, cuidado
sobre delicadeza

como arrumar as frutas na fruteira
e olhar da janela

o mundo que se mostra como algo a ser preparado
como terra, como chão que recebe
como os passos de um pequeno na calçada

sexta-feira, 7 de março de 2008


é que as rugas de gullar tanto lhe acrescentam
a pele também reforça a palavra
já cheia de vida
numa conversa franca
delicadeza de quem sente


sim, josé
também sinto tanta falta dela

quinta-feira, 6 de março de 2008

e eu tenho que falar de novo de manoel
devo parece repetitiva
mas é que eu estou com as duas mãos no rosto
me perguntando o que fazer com tanto encontro
é muito encontro, meu deus
àrvores, vagalumes, pássaros, rios, homens
e meninos
e meninos

posso fazer disso um delírio
e posso
e vale!
os encontros me renovam
me recomeçam
todo dia é de poder ser árvore, limo, pássaro, pedra
todo dia é de ser grão de areia
passarinho
esse deve ser o melhor ser
ser grilo quebrando silêncio da noite

quarta-feira, 5 de março de 2008

segunda-feira, 3 de março de 2008

sobre noite com sonho




não há juízo
nem redenção
nós somos o que é santo

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008


às vezes tenho medo da melancolia que a distância dos passarinhos pode me trazer
vivo os passarinhos como nunca
e penso num plano
eu e ele numa casa que por perto hajam os pequenos
pra gente ampliar todo dia
é que às vezes a vida empurra pra apequenar
mas os passarinhos
nos ampliam e ampliam

me ensinaram isso de crescer pro que é pequeno em tamanho
como eu gostei disso
tanto tanto
é um romantismo que sempre tive e manoel me lembra
amar tanto arthur me traz
essa beleza de divinar a vida

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

todo dia eu berro
e desconfio que seja pela incompreensão do tamanho de certas coisas
a noite
a náusea
a falta
a pequena esperança verde que entra no quarto e muda tudo





e o amor por alguém que não pari nem me criou
como é grande, meu deus...

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Que a importância de uma coisa há de ser medida
pelo encantamento que a coisa produza em nós
Que a boneca de trapos que abre e fecha os olhinhos azuis nas mãos de uma criança
é mais importante pra ela que a Codilheira dos Andes
O olhar segura a palavra na gente
Se admirava de como um grilo sozinho
um só pequeno grilo
podia desmontar o silêncio de uma noite




esse Manoel de Barros...

sábado, 16 de fevereiro de 2008


meninos, meninas
olhos que acompanham
um movimentar pelo pátio
e o meu advinhar
queria falar deles
mas sempre ameaço demonstrar muita emoção
e me acanho de que algo se perca
numa escrita despreparada, inquieta
então vou falar só do querer falar
o conseguir não é de agora

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008


Não sou muito boa nisso de ir dormir. É que às vezes a cabeça não descansa e eu penso sobre tudo, ou eu fico com medo de um sonho ruim. Noites assustadas que eu amplio pra ser criança. Mas hoje acho que sei o que fazer até que os olhos fiquem pesados, vou pensar nos poemas que li hoje, tantos, tão encantadores. Pensarei então em manoel, gullar, drummond, quintana, uns pelo primeiro e outros pelo segundo nome como companhia, à sua maneira de serem íntimos meus.


E ele me disse algo bonito pra pensar em noites longas como essa. bonito como sonho bom, bonito que é de guardar segredo.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
















"o olhar segura a palavra na gente"
Manoel de Barros

domingo, 10 de fevereiro de 2008

A proteção pungente

Meu pai fez aniversário esse mês, e já há alguns dias fico muito emocionada de pensar nele, na sua idade, na sua vida, desejos, insatisfações e esperanças, muitas delas relacionadas a mim. Por vezes, muitas vezes eu sou sua crença e fé. Procurei no dia esse texto de Clarice que me fez chorar há um certo tempo por dizer tanto sobre mim em relação a ele. E dizer também sobre essa noites que eu demoro a dormir e velo mais do que nunca por quem amo.



"Ela não podia olhar para seu pai quando ele tinha uma alegria. Por que ele, o forte e o amargo, ficava nessas horas todo inocente. E tão desarmado. Oh Deus, ele esquecia que era mortal. E obrigava a ela, uma criança a arcar com o peso da responsabilidade de saber que os nossos prazeres mais ingênuos e mais animais também morrem. Nesses instantes em que ele esquecia que ia morrer, ele a tornava a Pietá, à mãe do homem."

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

água viva

marni horwitz




sobre a espera de que os signos e alegorias deixem de sê-los somente
pra ser vida
um esforço também meu
um jeito de não se esgotar
um não morrer como desafio


No descomeço era o verbo
Só depois que veio o delírio do verbo
o delírio do verbo estava no começo, lá
onde criança diz: escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz do poeta, que é a voz
de fazer nascimentos -
o verbo tem que pegar o delírio.


Manoel de Barros

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

deixar a sua luz brilhar e ser muito tranquilo
deixar o seu amor crescer e ser muito tranquilo